1. Sendo a urgência um símbolo dos tempos modernos, porque a sociedade valoriza o êxito imediato muito para lá do que seria aconselhável e penaliza o fracasso como tragédia irremediável, o futuro é cada vez mais entendido na perspectiva do romantismo fora de moda. No futebol, este raciocínio atinge níveis absolutamente doentios, porque a tendência consumista, que entre nós é alimentada pela via da ginástica financeira, exige resultados automáticos, desaconselha a dúvida e recusa a reflexão como terapia. Num meio competitivo, em que só o presente sentencia o humor das bancadas, é imperioso criar heróis e vilões que dêem rosto a vitórias e derrotas. Um processo em constante renovação e no qual as indignidades estão autorizadas.
2. Luisão foi recebido com a desconfiança habitual que faz vítimas entre quem não corresponde aos padrões de elegância, habilidade e magia. Pior ainda: olharam-no como se não tivesse passado (e já jogava na selecção do Brasil), muito menos futuro (e já estava referenciado por alguns dos maiores clubes da Europa). Em Portugal, prevaleceram as primeiras impressões de um futebolista com dificuldades na coordenação motora e na relação com a bola; desajustado na utilização do corpo; sem a velocidade correcta para atacar os adversários e mau avaliador das distâncias de marcação. Para quem atravessou o Atlântico com o objectivo de reduzir exigências e adaptar-se a um tipo de jogo diferente encontrou impaciência e incompreensão.
3. Julgado em cada lance, Luisão resistiu à dúvida e construiu um estatuto. Revelou então inteligência no modo como adaptou as características tradicionais do central sul-americano aos elementos defensivos de referência no futebol europeu. Tal como Ricardo Gomes, Mozer e Aldair, também ele foi obrigado a reciclar muito do que já dera como adquirido: aprendeu a movimentar-se em deslocamentos mais amplos; a viver sob agitação constante; a lidar com a pressão dos adversários à saída da área; a ser preciso e criterioso no passe que inicia a etapa atacante. Entendidos os novos fundamentos foi mais fácil expressar as melhores características: sentido posicional e de antecipação; exuberância física e bom jogo de cabeça. Certo de que ainda pode voar mais alto.
4. Numa equipa agredida pelos seus próprios adeptos, foi preciso isolar a corrente negativa para manter a confiança, preservar a boa convivência e acreditar no sonho que, afinal, permanece intocável. Como prova de integração segura, Luisão decifrou códigos do clube, estabeleceu cumplicidades com o balneário e assimilou o estilo do País, do futebol e da sua gente. Porque foi posto em causa, assumiu o duplo compromisso de honrar a camisola e não deixar sem resposta quem o discutiu sem respeito e o analisou com leveza. Na noite em que o barco bateu no fundo (derrota com o Beira-Mar, para a SuperLiga), desafiou os lenços brancos, os assobios e os insultos, marcando para Maio um ajuste de contas que sugere festa mas tem sabor a vingança. Esse duelo pode ser, de resto, um dos últimos actos como jogador do Benfica, antes de partir para a Meca do futebol e, para cúmulo da ironia, deixar nos cofres da Luz um bom fundo de maneio.
Para lá da estatística e superstição
Os argumentos que mostravam erros do treinador e sustentavam críticas exteriores têm-se perdido aos poucos – o futebol está muito para lá de estatística e superstição. Fomos ouvindo, como verdades absolutas, que se Enakarhire fosse central, o Sporting não sofria golos; com Custódio não perdia; com Rogério atrás ganhava consistência. Tudo mentira.
No Restelo, faltou Viana (mau prenúncio) mas o melhor foi Barbosa, seu substituto. Parece que o problema agora é Carlos Martins. Era de prever. Nunca ouviram que a corda parte sempre pelo lado mais frágil?
O líder do segundo pelotão
Sem Ricardo Nascimento, o Rio Ave regressou ao sexto lugar, liderando o segundo pelotão da SuperLiga, à frente de Marítimo, V. Guimarães, Belenenses, U. Leiria e V. Setúbal. Com menos magia mas com os mesmos princípios; com menos qualidade mas com trabalho, bom gosto e orgulho, Carlos Brito prossegue obra inesquecível e ganha posição entre os treinadores mais competentes do futebol português.
Ele prefere as coisas difíceis
Tinha introduzido um grão de areia na tarde mágica ao falhar uma grande penalidade. Caíco interpretou o sinal que contrariava a tendência e resolveu fazer um teste definitivo ao estado de graça da equipa: pegou na bola a meio campo, foi por ali fora passando adversários como se eles não existissem e assinou um golo à Maradona. O que se há-de fazer (?), ele prefere as coisas difíceis.
Não precisava de ser Pelé
No Restelo, o Sporting começou por ser igual a si próprio: teve a bola, assumiu a iniciativa e atacou. Só muito tarde entendeu que esse domínio constituía oferta venenosa de um Belenenses exemplar em termos estratégicos. Os azuis confirmaram ainda um central de físico exuberante, com inteligência táctica e qualidade técnica. Foi ele quem decidiu o clássico. E nem precisava de chamar-se Pelé para marcar um golo daqueles, tão simples e facilitado.