Em plena época de repressões

1. Para trás ficara um rasto desgraçado de erros, confusão, revolta e grosserias de quase toda a espécie; pela frente estava o final cada vez mais próximo de um jogo vazio de qualidade. Os derradeiros minutos do Boavista-Sporting foram generosos com o futebol: apagaram as indignidades do quadro negro em que se desenrolou o combate e ofereceram um bom argumento para o eternizar. Os dedos estalaram e ali estava a imagem exuberante de um menino capaz de satisfazer todos os requisitos da excepção: talento, golo, juventude e sonho. O momento de magia, que enquadra Cristiano Ronaldo com o futuro, remete-nos para o dia da estreia. Disse há três meses, contrariando todos os lugares-comuns, que a história estava só no início e as pessoas ainda nada tinham visto do seu valor. Foi irreverente (o que é pecado) mas tinha razão (e isso pode ser ainda pior).

2. Numa altura em que quase todas as equipas estão transformadas em fábricas de produção em série, geridas com mão de ferro a partir de conceitos como rotina, mecânica, uniformização, ordem e silêncio, o objectivo supremo de quem manda tornou-se atingir o êxito sem abdicar da robotização colectiva. Neste quadro, a introdução de factores – estranhos às fábricas mas familiares ao futebol –, como criatividade, paixão, diálogo e até rebeldia tem sido reprimida das mais diversas formas. Foi a este meio, desrespeitador da grandeza do fenómeno que marcou o século XX, que Cristiano Ronaldo chegou. Veio escudado no talento superior, mas apresentou as credenciais exposto ao desassombro de palavras ousadas, todas com origem numa convicção óbvia: ninguém melhor que ele próprio sabe quanto vale.

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3. Neste âmbito, são exemplares as palavras do professor Jorge Araújo, figura de referência do desporto português, no Seminário Internacional do Treino de Jovens (2000): "Quais as capacidades mais importantes para um atleta de alto rendimento? Direi que ele tem de ser capaz de assumir as suas próprias responsabilidades, não ter medo de participar no seu processo de preparação e não ter medo de questionar o treinador (se for caso disso). Não deixa de ser curioso que nós, treinadores, tenhamos 'perseguido' ao longo de anos os atletas que, na sua maioria, tinham essas características." Uma questão identificada sem rodeios: "(...) E quem eram esses praticantes? Quais as suas características? Revelavam autonomia, criatividade e grande capacidade de participação. E, verdadeiro pecado mortal, muitas vezes não estavam de acordo comigo!"

4. Ronaldo nunca foi tão longe, mesmo que seja de eficácia duvidosa voltar à equipa B só porque abordou mal determinado jogo – aconteceu há dois meses. É importante que leia o "Bloco" do seu treinador para entender as regras. Conta Laszlo Bölöni que, em determinada altura da época passada, Rui Jorge teceu um comentário sobre o preparo físico: "Olhe que quando regamos de mais uma planta ela murcha." Bölöni, para quem Rui Jorge tem a mania (pouco apreciada, digo eu) de dizer "sim, mas...", tratou de lhe explicar os seus dois princípios: "Primeiro, o treinador tem sempre razão; segundo, quando não tem razão aplica-se o princípio número um." Já agora, e ainda nesta era de repressões várias, mas a outro nível, se lhe pedirem para avaliar a SuperLiga, deixe-se de ideias: dê 20 valores. É o mínimo que o major Valentim Loureiro aceita para dar a opinião como boa. O Simão só deu 11 e levou um raspanete como se andasse na escola primária.

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