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Era uma vez um trono vazio

1. Concentra todas as atenções mas não corresponde a um produto televisivo apetecível; o semblante triste, a expressão sofrida, o ar pesado e a calvície precoce não satisfazem os requisitos da força motriz deste futebol de corte industrial, orientado por tiques de novo-riquismo e excessivamente condicionado pelo valor da imagem. Zinedine Zidane é um paradoxo total, porque enche a alma de todas as plateias e é indiferente à felicidade que distribui; porque à expressão sublime da sua arte corresponde a timidez de quem se encandeia com o reflexo da luz que emite. Quando as câmaras o descobrem depois das constantes obras-primas que assina por jogo, em vez de o vermos alegre pelas preciosidades que gera, encontramos um rosto inexpressivo, submerso em suor que escorre ininterruptamente.

2. Não atingiu a perfeição genética de Pelé e Maradona nem a exuberância marcante dos eternos imperadores Di Stefano e Johan Cruijff; falta-lhe o golo de Platini, Zico e Rivaldo e a liderança de Beckenbauer e Matthäus; não faz da explosão um modo de vida constante como Eusébio, Romário e Ronaldo, nem se aproxima de Garrincha, Best e Figo no valor atribuído à utilização de drible e velocidade. Apesar de tudo, recordando palavras recentes de Jorge Valdano, Zidane é a síntese de um século de futebol e, simultaneamente, uma das suas expressões plásticas mais exuberantes. Um jogador assente em inteligência conceptual (visão ampla), execução perfeita (a técnica portentosa como ferramenta) e domínio absoluto de cada um dos segredos do jogo (a intuição comum aos grandes jogadores).

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3. Zidane é a enciclopédia que regista a evolução do jogo ao longo de décadas e acompanha as tendências que o trouxeram até aos dias de hoje. Qualquer que seja a zona do terreno em que se encontre, ele é o mestre com resoluções de catálogo para as dificuldades. Quando faz circular a bola (alimenta a rotina) ou dá profundidade às acções (cria a surpresa); joga curto ou longo; introduz a pausa ou golpeia por aceleração; passa ao primeiro toque ou se entrega a exercícios solitários, é desnecessário ter dúvidas, pois nunca se engana em decisões conceptuais. Como vê sem olhar (mantém viva a arte do inesquecível Michael Laudrup), usa o passe para esconder intenções, melhorar produção dos companheiros, multiplicar o rendimento colectivo e criar assombro em todos nós. Só os adversários não têm razões para agradecer.

4. Pelé só precisava de um palco para fazer explodir os dotes artísticos (génio, ritmo, perícia e harmonia) assentes em físico todo-poderoso; a Maradona bastava uma bola para decidir a liga italiana, um Campeonato do Mundo e dar-nos a felicidade suprema de ver o que nunca víramos nem voltámos a ver. Zidane precisa de uma equipa à volta para alimentar o génio criativo e dar sentido aos seus movimentos; não sendo auto-suficiente, está cada vez mais perto, por regularidade, currículo e expressão futebolística, do patamar divino que só Di Stefano, Pelé, Cruijff e Maradona atingiram. O tempo de maturação ainda não é suficiente para o medir em todo o esplendor, nem para perceber o papel que a História reserva à França e ao Real Madrid do novo século. A mim parece apenas que o trono vazio desde os anos 80 encontrou o seu quinto elemento.

Passe curto

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NÃO É POR ACASO. Adriano é o melhor marcador da SuperLiga, ao serviço da equipa que melhor futebol pratica em Portugal. O avançado do Nacional tornou-se a imagem mais exuberante de um conjunto com ambições moderadas que, assente no bom gosto, na competência e na ambição, tem conseguido valorizar o seu património humano. E atenção: ninguém marca mais de 30 golos em ano e meio por acaso.

À PROCURA DE UM 10. Se expressar no Marítimo metade do potencial, Leo Lima será figura da SuperLiga; se confirmar o que sabe (e Cajuda é homem para lhe extrair ainda mais) fará corar de vergonha quem continua à procura de número 10 a sério. É mesmo génio. Cuidado com ele.

À PONTA-DE-LANÇA. Tem salvo o Boavista pelos golos (de bola parada) e os espectadores pelo talento com que dá cor a equipa pouco imaginativa. Com o Rio Ave, Ricardo Sousa acrescentou dados a época de sonho: recebeu na área, anulou dois adversários e, calmo, rematou para a direita de Mora. Golo à ponta-de-lança, de quem não pára de surpreender.

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SELO DE QUALIDADE. Vem das escolas do Benfica e é referência nas selecções jovens. Bruno Aguiar tem contrato com o clube, mas não se impôs na Luz; no Alverca venceu o infortúnio e, agora, é à sua volta que os ribatejanos se unem para fugir à despromoção. As duas últimas vitórias tiveram o seu selo de qualidade. O Euro de Esperanças espera-o.

O poder de fogo da República Checa

Fizeram uma qualificação imaculada e deixaram a Holanda em segundo lugar do grupo; os seus jogadores, espalhados por algumas das melhores equipas da Europa, mantêm o prestígio e a qualidade. É a República Checa, uma das mais fascinantes selecções da actualidade, que foi a Itália empatar (muito bom) a dois golos (um feito). Os checos, que não são, à partida, favoritos a ganhar o Euro'2004, confirmaram poder de fogo muito interessante. Sabe-se lá o que podem fazer em Portugal…

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