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Ao longo dos meses que antecederam o arranque do Mundial, as expectativas para a competição pareciam historicamente baixas. Com os Estados Unidos mergulhados num caos político e diplomático e o Mundo numa espiral de conflitos com impactos financeiros, o espírito universalista da competição, agora alargada a 48 seleções, parecia comprometido. A errância da FIFA sublinhava ainda mais o previsível fracasso da prova, ameaçada também pela sobrecarga dos calendários, pela enorme dispersão geográfica do torneio e pelas exigentes condições climáticas.
O fiasco era garantido, até que a bola começou a rolar...
Mesmo sendo precoce qualquer balanço, a verdade é que o Mundial está a correr muito bem. A 1.ª jornada fechou com a melhor média de golos por jogo (3,125) desde 1958 (3,625 com 16 equipas). Apesar do receio de que os jogadores se apresentassem exauridos, o facto é que as grandes figuras (ou quase todas, vá) estão a corresponder. Apesar dos prognósticos de enormes desníveis face ao alargamento do formato, quase todos os jogos têm sido competitivos e há boas surpresas entre as seleções menos cotadas. Apesar dos preços exorbitantes, os (impecáveis) estádios apresentam taxas de ocupação altas e as audiências internacionais batem recordes. Apesar da histórica transformação das duas partes em quatro períodos, a qualidade não se ressente e os anunciantes e as televisões (ou plataformas de conteúdos) agradecem.
Mesmo perante um contexto desfavorável e um embaraçoso conjunto de erros políticos, o futebol demonstra a sua força ímpar e confirma a margem de crescimento das grandes competições. A FIFA, tal como a UEFA, exibe uma extraordinária capacidade de moldar e expandir as suas provas, atingindo taxas de retorno elevadíssimas. As maiores provas de seleções e de clubes ainda não bateram no tecto, o que sendo bom, também pode ser péssimo.
O Mundial, o Europeu e a Liga dos Campeões são uma ínfima parte da pirâmide do futebol, mas já concentram a esmagadora maioria das receitas que o todo consegue gerar. Quanto mais assimétrico se torna o edifício, mais frágeis ficam as suas bases, onde se encontram as competições nacionais, incapazes de descobrir o equilíbrio entre a sua herança histórica e os ventos de modernidade.
Temendo tornar-me repetitivo, devo lembrar que ando há anos a pedir para que em Portugal façamos uma reflexão profunda que oriente tomadas de decisão. A mudança não é opcional, antes uma obrigação, restando saber se a antecipamos ou se, talvez demasiado tarde, esperamos que ela nos engula.
Por António Salvador