Este capitão é um general

1. Sendo um jogo que, por interessar ao povo, ascendeu a espectáculo de primeira grandeza, o futebol atingiu dimensão que o transformou em fenómeno social e numa das mais arrebatadoras manifestações culturais do mundo em que vivemos. Como não distingue classes, constitui uma cerimónia que promove e dá futuro a artistas pobres e iletrados; por ser generoso fez um pacto com a Natureza e aceitou albergar uma fauna complexa de génios gordos e magros; talentos rápidos e lentos; estrelas solidárias e egoístas; soldados valentes e cobardes. O tempo deu-lhe força representativa extraordinária, assente no simbolismo da bandeira e nas emoções da gente, razão pela qual o poder político o cortejou, o invadiu e, em certos casos, dele se apropriou com intenções perversas.

2. Jorge Costa, que viveu de azul e branco os melhores anos da vida, sabe avaliar a sua importância no clube que lhe criou os sonhos mais belos e o ajudou a concretizá-los. Exemplo de uma estética feita de esforço, sacrifício, contundência, mas também de inteligência, qualidade e saber acumulado, na sua figura de general implacável e dominador concentram-se alguns dos princípios sagrados do FC Porto: ele é o emblema inspirador que dá sentido à união; a imagem que resume luta, vitória e ambição permanentes; o rosto de um ciclo vencedor único em Portugal. A braçadeira cumpre o papel habitual e coloca-o perante a História com a mesma carga simbólica de capitães como Jorge Vieira, Álvaro Cardoso, Mário Coluna, Humberto Coelho e Fernando Gomes.

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3. Se as vitórias constituem o passo mais seguro para o reconhecimento, o brilhantismo, individual ou colectivo, é o modo mais eficaz para satisfazer os espíritos mais sensíveis. Se vencer pode não passar de mera estatística, fazê-lo com magia é o caminho mais seguro para a eternidade - e nem faltam exemplos de viagens bem sucedidas que não precisaram sequer de ser ganhadoras. Porque tem ambições artísticas limitadas, Jorge Costa contribuiu com armas próprias para a suprema felicidade - já passou a marca dos 20 títulos: neste FC Porto vencedor da Taça UEFA, bicampeão nacional, campeão europeu e mundial, impôs-se por liderança e superação. Que também é uma forma de conquistar respeito e garantir acesso directo à memória colectiva.

4. Enquadrado pela máscara de esforço que lhe confere o ar de anjo cansado, capaz de convencer qualquer tribunal de uma inocência nem sempre verdadeira, Jorge Costa não perdeu velocidade de pernas. A entrada na veterania roubou-lhe agilidade nas reacções e exuberância nos gestos mais bruscos. Nada que belisque o poder de um defesa que passa hora e meia a antecipar movimentos adversários; a defender posição com acerto impressionante; a colocar o corpo na perfeição nos duelos pessoais e a revelar sentido estratégico absolutamente fantástico no domínio do seu espaço de acção. Já não tem condições para jogar sempre, mas quando se apresenta na posse de todos os argumentos técnicos, físicos e mentais, continua a ser o melhor e mais preponderante central da SuperLiga.

Uma brisa de loucura saudável

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Carlos Alberto não sabia o que fazer com tanta alegria depois de ganhar a Taça Intercontinental. Resolveu então celebrar com beijos na testa dos japoneses que distribuíam as medalhas e podiam até ser da família do Imperador (ou o Imperador, ele próprio, sabe-se lá?); com abraços e beijos na face de um tal Platini e festas nas bochechas do velho Grandona, vice-presidente da FIFA, que ali era apenas um "vovô bacana". A um miúdo de 20 anos, amigo de Zico e acabado de chegar ao topo do Mundo, tudo é permitido. Incluindo uma brisa de loucura saudável.

O árbitro e o golo canalha

O árbitro assinalou falta e promoveu a assembleia habitual: sorriu, conversou e, enquanto se formava a barreira do Chelsea, avisou que o apito era a chave da questão. Henry atirou por sua conta e risco; a bola entrou e o estádio explodiu. O juiz, surpreendido e levado pela euforia geral, engoliu o apito e sancionou o golo canalha, tornando-se cúmplice da tramóia. Um escândalo.

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Não foi para aquilo que o fizeram

Moreira cresceu na perspectiva de ser guarda-redes de uma grande equipa - talento que distingue os grandes craques das balizas. No Restelo fez viagem às profundezas do inferno: habituado a ser decisivo nas vitórias, com uma ou duas intervenções por jogo, brilhou com quatro golos sofridos e meia dúzia de excelentes defesas. Uma dor de alma: não foi para aquilo que o fizeram.

Não precisava de ir tão longe

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Há jogadores que precisam de um momento em particular para serem olhados e reconhecidos pelo que vão fazendo durante semanas e até anos. De uma hora para a outra, José Pedro tornou-se familiar ao comum dos adeptos só porque marcou dois golos ao Benfica. A verdade é que não precisava de ir tão longe para mostrar que é um jogador excepcional, generoso de mais para ser artista, mas todo ele extraordinário para ser apenas mais um. Meio caminho andado para ser reconhecido.

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