Estranho discurso na Selecção

Não é fácil estar no estrangeiro e querer assistir aos jogos da Selecção Nacional. Mas, claro, há que tentar. Foi o que fiz na última quarta-feira (quinta-feira em Macau). Juntamente com um grupo de camaradas de profissão, atrasámos o jantar para poder juntar o útil ao agradável (entenda-se a refeição com o visionamento da partida). Porém, o melhor que conseguimos – para além de umas passagens pelo Croácia-Inglaterra e Irlanda-Rep. Checa – foi observar ranchos folclóricos do Minho, uma antiga telenovela da TVI, um programa do sempre eloquente José Hermano Saraiva sobre a excitante Pampilhosa da Serra e mais umas quantas coisas que, felizmente, não consigo recordar. Foi esta a programação da RTP Internacional enquanto a Selecção actuava na Polónia…

Horas depois, já com o sol a entrar pela janela do quarto, lá pude visionar, em diferido, a derrota número 10 de Scolari à frente da nossa Selecção. E, tal como muita gente já admitiu, não gostei do que vi. Mas, para ser sincero, não foi o que se passou durante os 90 minutos o que mais me incomodou.

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Depois daquela conversa estranha a sugerir o empate na Finlândia como um bom resultado, o seleccionador voltou a assumir, antecipadamente, que ganhar ao Azerbaijão e empatar na Polónia seria positivo. Admito que a qualificação seria facilmente assegurada vencendo todos os jogos em casa e empatando fora (28 pontos seriam suficientes), mas não posso concordar com esta abordagem sem ambição, pouco ou nada condizente com quem, antes da “poule” de qualificação se iniciar, dizia que o objectivo era fazer melhor que na edição anterior do Europeu. Ora, se a memória não me falha, fazer mais que em 2004 passa por conquistar o título. E sendo certo que para atingir tal desiderato, até à fase final apenas é preciso assegurar a qualificação, penso que se devia manter um discurso positivo, ambicioso, centrado nas vitórias e não nos empates. Até agora era esta uma das imagens de marca de Scolari.

Já empatámos na Finlândia. Foi bom? Não me parece, embora tendo em conta que o jogo foi disputado quase em pré-temporada, se possa aceitar a opção por uma exibição segura, pouco dada ao risco. Mas, vejamos as coisas assim: será bom empatar no Azerbaijão, na Arménia ou no Cazaquistão? Eu sei que, caso consigamos somar os 21 pontos em disputa nas partidas caseiras, o apuramento não escapará, mas alguém se contentará com empates fora diante adversários sem qualquer cotação? Eu, digo-o já, nem quero pensar nessa possibilidade.

Uma equipa que terminou em segundo o último Europeu e em quarto o Mundial da Alemanha não pode esbanjar prestígio com exibições ou resultados menores. Eu sei que para o seleccionador tudo isso tem importância reduzida, mas a verdade é que o empate com o poderoso Liechenstein já foi suficiente para nos fazer corar de vergonha.

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Futebolisticamente falando Portugal tem, hoje em dia, um estatuto a defender internacionalmente. E se Scolari contribuiu (e muito) para esse “status”, convinha que entendesse, de uma vez por todas, que tudo o que não seja ganhar perante equipas sem grande expressão é… mau. E se este estranho discurso é adoptado quando enfrentamos formações menores, nem quero imaginar o que vai ser dito no momento de medir forças com os concorrentes “a sério” (Sérvia e Bélgica).

E já agora, aproveito para recordar uma das frases feitas do futebol: quem joga a pensar no empate… normalmente perde. E isso resume bem o que se passou na Polónia.

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