A UEFA quer disciplinar as finanças dos clubes de futebol europeus. Criativa, chama-lhe “fair play financeiro”: regras que forçarão os clubes a convergir para a estabilidade financeira, ou seja, a não gastar mais do que recebem. Onde é que já ouvimos isto?
O “fair play financeiro” está para os clubes como o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) está para os países europeus: impõe tetos aos seus défices. É uma ótima medida. Porque tirando campeonatos como o alemão, em que os clubes são geridos com racionalidade e estratégia de longo prazo, o futebol europeu é basicamente inviável. Os clubes ingleses, espanhóis ou italianos (ou portugueses) são monstros de endividamento, com orçamentos colossais que só são rentáveis no papel ou em anos muito especiais. Mas como esse cruzamento de astros dificilmente dura anos, e não dá para todos, o futebol europeu vive em prejuízo crónico.
O caso português é apenas um exemplo: num País que, por razões financeiras (não por razões éticas), acaba de obrigar o seu Presidente da República a prescindir do salário para manter a pensão de reforma, os salários dos jogadores de futebol são um insulto para o contribuinte, que ciclicamente lhes concede perdões fiscais.
Nos clubes, o capitalismo inverteu-se: os “acionistas” acumulam prejuízos enquanto os “empregados” enriquecem: os prejuízos milionários dos clubes são os salários gordos dos jogadores e os lucros chorudos dos intermediários, agentes, donos de direitos de transmissão ou bancos que os financiam.
É esta extorsão, de quem vive não no futebol mas dele, que a UEFA quer parar, seguindo bons exemplos de desportos americanos. Se os clubes não fizerem ao “fair play financeiro” o que os países fizeram ao PEC, inventando receitas e despesas extraordinárias, vamos no bom caminho. Se não...