1. Já não precisava da Liga dos Campeões para discutir a hegemonia em Portugal, mas o triunfo de Gelsenkirchen permite ao FC Porto viver mais comodamente num trono que já teve outros ocupantes. Se o Sporting dos violinos (Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano) reduz à expressão mais criativa o poder também construído à custa de Jorge Vieira, Mourão, Azevedo, Álvaro Cardoso, Canário e Carlos Gomes, também o Benfica de Eusébio é a abreviatura de uma época entre José Águas e Chalana, passando por Coluna, Simões, José Augusto, Humberto, Nené e Bento. A História referenciará o terceiro ciclo na figura de Pinto da Costa, apesar de Gomes, Futre, Madjer, João Pinto, Vítor Baía, Jorge Costa e Deco. Mas será generosa com a competência de José Maria Pedroto, Artur Jorge e, fatalmente, José Mourinho.
2. Há dois anos e meio, Mourinho apresentou-se com paixão, conhecimento técnico, personalidade dominadora e autoridade moral; valorizou os pilares mais sólidos da instituição e agitou os espíritos adormecidos; introduziu atrevimento e combateu o comodismo; indicou o caminho de um sonho e enquadrou com saber a sua construção. No momento de tocar o ponto mais alto do céu, confirmou a condição de mestre há muito reclamada pelos seus alunos e acentuou a imagem de profeta atribuída pelos adeptos portistas. Os críticos calaram-se até à próxima oportunidade, assumida a luta inglória de desvalorizar a obra de quem viveu sempre adiantado ao tempo: um miúdo que era treinador mesmo quando jogava futebol; um adulto ganhador muito antes de conquistar o primeiro título.
3. Tal como o grande maestro começa na percepção do talento dos músicos que fazem a orquestra, também Mourinho interpretou o primeiro sinal que distingue os comandantes de uma equipa de futebol: mostrou que sabe de jogadores - avaliou e escolheu, entre outros, Maniche, Derlei, Paulo Ferreira, Nuno Valente, McCarthy, Pedro Mendes, Carlos Alberto e Maciel... Só depois incidiu o foco no mérito das ideias, na excelência dos métodos e na convicção do trabalho que juntou base científica indiscutível à operacionalidade de quem domina os segredos do balneário. O FC Porto, que num ano ganhou Liga dos Campeões, Taça UEFA, SuperLiga (duas vezes), Taça de Portugal e Supertaça Nacional, tornou-se referência de um período e expressão máxima de um ciclo agora abalado com a saída do seu principal mentor.
4. Em 1984, Eriksson concluía dois anos de ouro na Luz, com repercussões no início de nova era no futebol português. Porque Chalana (o génio) e Stromberg (a locomotiva) também partiram, a época seguinte foi de sofrimento: a equipa desintegrou-se por desmotivação; por estar órfã do líder natural, viveu em permanente sobressalto com o novo treinador. Mas quando alguém atribuía as culpas do descalabro de 84/85 a Pal Csernai, o presidente Fernando Martins não concordava: "A culpa é do outro (Eriksson), que roeu a corda." Vinte anos depois, Pinto da Costa passou discreto pela euforia azul e branca. Ele sabe, melhor do que ninguém, o significado do divórcio com José Mourinho. E já mediu o perigo das suas consequências.
Uma final europeia com vinte faltas
A final de Gelsenkirchen foi marcada pela segurança de Kim Nielsen. O dinamarquês provou que a discrição e o critério largo também valem ao mais alto nível - assinalou vinte faltas, as mesmas que Lucílio Baptista, por exemplo, costuma sancionar em pouco mais de 20'.
No amarelo a Carlos Alberto limitou-se a cumprir uma lei sem pés nem cabeça. Ver o árbitro, depois de um golo, preocupado em saber se alguém tira a camisola é tão indigno como ver polícias de trânsito à caça das multas.
PASSE CURTO
Está a crescer
Jogador de nível europeu, Paulo Ferreira está ainda a crescer no lugar específico ao qual se tem adaptado com excelentes resultados - aperfeiçoou o que já sabia fazer e faz cada vez melhor aquilo que não fazia tão bem. Se é o melhor lateral-direito da Europa? O pior não é com toda a certeza - onde é que eu já ouvi isto?
Fenómeno russo
Num jogo adormecido mas perigoso pelo ascendente do Monaco, Alenitchev foi a solução milagrosa: trouxe calma, talento e bola. Dos seus pés nasceu o golo que fez respirar de alívio e, para que nada faltasse, assinou o arranque para a grande festa. Este russo é um fenómeno.
Não se fala mais nisso
Há avançados cuja expressão se reduz à eficácia, tal como há quem viva dependente da inspiração. Como não viviam felizes, Carlos Alberto, Deco e Alenitchev compensaram com um golo cada. E não se falou mais nisso.
A história de amanhã
O mais ganhador dos jogadores portugueses personifica a imagem de quem está a fazer hoje a história de amanhã. Vítor Baía chegou a 2004 no apogeu das qualidades físicas, técnicas e psicológicas. Em dois anos fabulosos confirmou que é um dos melhores guarda-redes portugueses de todos os tempos e um dos melhores da Europa na actualidade.