O FC Porto habituou-nos a uma dinâmica de vitória tão incorrigível que basta não ganhar um título de campeão nacional para se abater sobre o Dragão um conjunto de críticas invulgares, muitas delas formuladas por quem se confessa portista desde pequenino. O problema (do FC Porto) é que os sinais que vai exibindo não são compagináveis com uma crise pontual. São sinais que podem estar a minar a famigerada estrutura e, mais do que isso, todo o edifício que define o modelo de desenvolvimento do futebol portista. O FC Porto tem um problema interno antes de ter um problema externo (Benfica e... Sporting). O que pode tornar, nesta fase ainda com Pinto da Costa, a transição mais difícil e até penosa, principalmente quando se percebe que, mesmo com alguns acidentes de percurso, o Benfica começa a equilibrar-se, mais competente dentro das quatro linhas e mais perspicaz fora delas...
O passado histórico do FC Porto, carregado de vitórias no plano nacional e internacional, dá sempre margem à possibilidade de um momento de reabilitação. Por isso havia a esperança de um assomo de portismo em Sevilha, não obstante se perceber que as ausências de dois jogadores nucleares como Jackson e Fernando poderiam pesar demasiadamente num plantel com muitas assimetrias e debilidades. Mas o que aconteceu na capital da Andaluzia foi mau de mais e terá traçado o destino de Luís Castro, que parecia estar a adaptar-se com sucesso a uma nova realidade. O FC Porto não foi goleado em Sevilha ou porque teve uma “má noite” circunstancial ou porque foi vítima de factores externos à sua capacidade de resposta, como muitas vezes acontece no futebol com as arbitragens. O FC Porto foi goleado em Sevilha porque se assumiu como uma extensão de erros cometidos não apenas esta época mas que se revelaram, particularmente, ao longo desta temporada. São erros que se foram acastelando e não tiveram consequências graves mais cedo porque o campeonato português é pouco competitivo e porque Benfica e Sporting andaram muitos anos – como diz o povo – a mandar bolas para o pinhal...
O FC Porto está a consentir a avolumação, na mesma fase da sua história, de um conjunto de situações que se podem tornar contraproducentes no curto-prazo:
1– Sucessão de Pinto da Costa. O presidente portista, que construiu o estatuto de estrela maior da constelação azul-e-branca, será o último a reconhecer que é tempo de dar o lugar a outro e deixar intacto o seu legado de grande fautor da transformação do FC Porto como grande clube à escala nacional e internacional. Isso gera bloqueios, desconfianças, interrogações e a sensação (negativa) de que “não há nada a fazer”, porque isso depende da vontade de uma pessoa e de mais ninguém.
2 – Acomodação da SAD. A repetição do êxito e a facilidade com que ele foi obtido durante anos a fio criaram alguma acomodação ou aburguesamento da SAD e uma certa cristalização em relação à forma como deve ser preparado o futuro. Isso torna-se visível na construção dos últimos plantéis. Exemplos? O João Moutinho substituir Raul Meireles faz sentido. Herrera ou Josué substituírem João Moutinho é que já não faz sentido nenhum. Quaresma é, hoje, no Dragão, o único jogador português com qualidade bem acima da média. Na última vez que Quaresma tinha estado no Dragão os seus colegas (portugueses) foram Vítor Baía, Bosingwa, Pepe, Bruno Alves, Jorge Costa, Pedro Emanuel, Ricardo Costa, Nuno Valente, Costinha, Maniche, Raul Meireles e Hugo Almeida. Agora, volvidos 6-7 anos são... Ricardo, Josué, Varela e Licá. Parece-me óbvio que há um decréscimo acentuado de qualidade.
3 – Situação económico-financeira e a perspectiva do negócio. O FC Porto ganhou fama (e proveito) no contacto com o mercado de transferências. Fez grandes vendas, com presenças permanentes na Champions, mas é óbvio que a sua pesada estrutura de custos absorveu as receitas geradas. E isso pode ter a ver com a perspectiva de negócio, cuja abordagem pode estar ultrapassada, não tanto pelos diversos interesses que é preciso atender – gerando desencontros, ciumeiras e “tutti quanti” de um mundo complexo e praticamente inacessível –, mas porque as exigências e contingências do futuro, como a pressão do “fair-play financeiro”, obrigariam a uma forma mais participada (e não tão fechada) de olhar para o negócio...
Tudo isto acontece num momento em que o Benfica, depois de muitos erros, depois de muitos avanços e recuos estratégicos, parece estar próximo de acertar o passo – e por isso a questão de ter ou não Jorge Jesus incluído no seu projecto global é vital para os próximos anos. E acontece com Bruno de Carvalho a dar luta e a não prometer tréguas, numa aposta de recolocação do Sporting no mesmo patamar competitivo... Em síntese: ou o FC Porto toma medidas urgentes (algumas das quais estruturais) ou corre o risco de... perder o comboio.
JARDIM DAS ESTRELAS - ****
Está Bento
Era preciso um treinador que ficasse por baixo (salvo seja) de Ronaldo. Era preciso um treinador, aparentemente frontal e de linguajar fácil, que fosse compreensivo em relação aos patrocinadores e a um agente-FIFA muito especial, só por acaso o seu próprio agente. Era preciso um treinador que compreendesse as ligações próximas do histórico detentor dos direitos televisivos. Era preciso um treinador que não causasse alergia ao poder político e às suas conexões empresariais. Era preciso um treinador que fosse “scolariano”. Era preciso um treinador que não complicasse o que era fácil. Faz sentido a renovação e... é agora que vamos ser campeões do Mundo.
O CACTO
Agentes
A FIFA concretizou há cerca de duas semanas a sua intenção de acabar com os chamados agentes-FIFA, e daqui a um ano os “intermediários” terão caminho livre para dar corpo a um novo sistema de licenciamento. Parece inacreditável mas é verdade: em vez de se criar mecanismos mais apertados de vigilância e regulação... liberaliza-se. Previsível: o caos vai instalar-se e os advogados devem estar a esfregar as mãos de contentamento. É uma medida que visa impedir o domínio dos principais empresários, e as verbas astronómicas que encaixam em cada operação? Certamente não vai impedir! A ver vamos se há coragem para fomentar a criação da(s) Casa(s) da(s) Transferência(s). Duvido.