Estreia hoje na RTP1 em “prime time” a série “Raia dos Medos”, mais uma história com assinatura de Francisco Moita Flores. Aos 46 anos, este alentejano de Moura, que a Polícia Judiciária trouxe para Lisboa (de 76 a 89 como agente, e entre 93 e 94 como assessor do director-geral - actualmente é também director do Centro de Estudos de Ciências Forenses), dedica-se agora de corpo e alma a outra actividade: a de romancista e argumentista. Sportinguista sofredor e pessimista, mostra-se pouco confiante para esta época porque esteve por dentro do “caso Guímaro”. Sonha fazer duas histórias sobre futebol: a de Vítor Baptista e a dos “Cinco Violinos”
- “A Raia dos Medos” vai mesmo corresponder às expectativas criadas?
- Penso que sim, vai ser uma coisa nova. É um grande espectáculo de televisão. Tem 13 episódios, o que é um número óptimo. E também porque é uma megaprodução, envolvendo meios técnicos até agora nunca utilizados. E ainda porque é o reavivar de um acontecimento cultural e histórico que nos marcou muito, a Guerra Civil de Espanha.
- Porquê só agora a abordagem a este tema?
- Nós temos alguma dificuldade em exorcizar as nossas vergonhas nacionais. Isto passa-se me relação às nossas cumplicidades com o genocídio que houve em Espanha e também, por exemplo, com a Guerra Colonial. Há um momento em que se faz a catarse e quando ela se faz as pessoas começam a escrever de forma espontânea, livre, sem ter preconceitos.
- Esta série passa por esse exorcizar de fantasmas?
- Por um lado é o reviver os fantasmas e, por outro lado, é confrontarmo-nos com uma memória histórica muito importante que é a solidariedade de fronteiras e que se regista muito na zona da raia, e que as populações de Lisboa, Porto e das grandes cidades desconhecem por completo, vendo ainda a relação entre Portugal e a Espanha pelo mito de Aljubarrota.
- Para quando algo sobre desporto, uma história de futebol?
- Não sei, talvez um dia. Gostava muito de contar duas histórias. Uma já houve contactos com um dos autores, para contar a história de Vítor Baptista. Gostaria muito de um dia fazer essa história de glória e de derrota da vida; Depois há uma outra história que gostaria muito de contar, mas que é mais antiga e tem a ver com o meu clube, com a gesta dos “cinco violinos”.
- E a “saga” dos dezassete anos de jejum do seu Sporting?...
- Isso não daria uma série, daria uma missa fúnebre. Já estou cansado do sofrimento. Mas continuo a ser um sportinguista convicto.
- Tem ido a Alvalade esta época? O Sporting vive momentos de esperança...
- Há bastante tempo que não vou a Alvalade. Por acaso, interrompi esse jejum de vários meses indo ao Estádio da Luz ver os 3-1. Foram dois benfiquistas que me foram buscar a casa e me levaram à força ao futebol. Mas valeu a pena. Conforme me sentei foi logo o primeiro golo do Sporting. Gostei. A equipa está a jogar muito bem. Acho que o Inácio recuperou para o Sporting uma coisa que nós já conhecíamos, que parece um ovo de Colombo mas não é: a velha escola do Fernando Pedroto. Aquela escola de disciplina, no tapar os terrenos do adversário sempre que está com a bola, recuperar o mais rápido possível a bola, atacarem todos.
- Passado o Natal, já se pode dizer que este ano é que é...
- O grande drama para os sportinguistas passa também pela Páscoa. Não há ano que se passe o Natal e logo a seguir não venha a Páscoa. Nunca vou esquecer o dia dos 6-3. Vim de propósito de Paris. Interrompi uma aula para apanhar o avião, à pressa, para estar no Estádio José Alvalade, num jogo em que o Sporting podia ser campeão. E depois foram 6-3. Injustificável, inacreditável. Portanto, sou um sportinguista de atitude pessimista. Mas claro que acredito que um dia, de facto... Há ainda outro problema. Conheci a fundo os escândalos da arbitragem, quando foi do “caso Guímaro”, aquilo de Penafiel. Era assessor da Direcção da PJ, e conheci coisas que preferia não ter conhecido, para não ter perdido a minha ingenuidade. Também por essas coisas não tenha assim muita confiança. Acho que só 50 por cento das vitórias passam pelo relvado, os outros 50 por cento vêm de fora.
- A Polícia Judiciaria devia investigar mais os “casos” do futebol?
- São casos que acabam arquivados, por falta de provas, devido ao corporativismo que se vive no meio. O próprio Estado, o Ministério das Finanças, sabe das transferências fabulosas, dos milhares de contos que envolvem, dos orçamentos clandestinos, e depois basta ver as declarações de IRS... Quando o próprio Estado não intervém neste sistema, é claro que as acções da Polícia estão sempre sujeitas a levar grandes “tareias”, como aconteceu nesse “caso Guímaro”. Por outro lado, acho que há alguma má-fé, muitas suspeitas contra o Pinto da Costa, se calhar injustificadas. Porque apesar de tudo, dá gosto ver a equipa do FC Porto jogar futebol. Se há alguma coisa subterrânea está escamoteada nessa coisa inegável: O FC Porto é uma grande equipa de futebol.
FILOMENA MARTINS