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Formas de reagir à insatisfação

1. O jogador insatisfeito por ser substituído parte de um erro de avaliação legítimo, muito vulgar mas de todo inaceitável: desenquadra-se da realidade e perde a noção das obrigações que tem perante o colectivo de que faz parte. É o primeiro a tomar duche, indiferente ao destino dos companheiros; é o primeiro a ir para casa, como protesto nunca assumido pelo facto de ter sido afastado do filme; é o último a aceitar a razão do treinador, processo que só o tempo consegue concluir. A complexidade do código que regula as motivações subjacentes à troca de futebolistas durante um jogo excede a legitimidade da decisão de quem manda e a obediência de quem é mandado. Porque, como sabemos, nem todas as substituições estão despojadas de segundas intenções, isto é, nem todas têm a ver, exclusivamente, com a tentativa séria de melhorar a produção da equipa.

2. Há muitas maneiras de abandonar o relvado prematuramente, uma delas por ordem do árbitro que, até prova em contrário, é a mais penalizante em todos os sentidos. Frente ao Varzim, Rui Jorge viu o segundo amarelo pela rispidez com que disputou um lance e, embora não tenha tocado no adversário, foi expulso – ou seja, foi mal expulso, ao contrário do que me pareceu na altura. No momento de ver o juiz correr na sua direcção, reagiu de imediato: deitou as mãos à cabeça e fugiu dali para fora – quando Paraty levantou o cartão vermelho, já ele corria para o túnel de acesso às cabinas. Mais que uma opção definida em termos meramente estéticos, a forma como Rui Jorge abandonou o campo, idêntica à utilizada por Renato, na Luz, dois dias antes, foi um grito silencioso – inteligente neste mundo dominado pela tirania – contra a injustiça.

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3. Old Trafford estava cheio e o jogo caminhava para o final; o Manchester United adiantara-se no marcador perante um fortíssimo Tottenham, quando Glenn Hoddle decidiu abdicar de Teddy Sheringham para o assalto final à baliza de Barthez. Durante meio minuto as emoções geradas pela substituição do capitão dos Spurs são difíceis de traduzir em simples palavras. Sheringham valorizou mais a revolta pela decisão do seu treinador que a impressionante manifestação de apreço dos adeptos do United; quanto mais a bola de neve feita de aplausos crescia e o público se levantava para lhe manifestar a sua gratidão, melhor se entendia a indiferença de quem caminhava para a linha lateral com um único objectivo: perguntar ao treinador se não tinha vergonha de o tirar numa altura em que tentava chegar ao empate. A cegueira era tal que terminou no banco dos suplentes do adversário – terá sido uma distracção sincera ou a expressão de um refinado sentido de humor?

4. A situação mais bonita, por consensual, é quando o treinador aproveita a prerrogativa de tirar um jogador para lhe dar a possibilidade de ouvir os aplausos merecidos pelo seu trabalho. Foi o que sucedeu com Carlo Ancelotti e Rui Costa na Corunha, não tanto pelos efeitos práticos junto de plateia naturalmente hostil, mas pelo significado daquela que foi uma mais espectaculares demonstrações de talento dadas por um futebolista nos últimos meses. A melancolia combina bem com o seu futebol genial; a nostalgia de andar por ali como quem sente saudade dos tempos em que era amado por dirigentes, técnicos, adeptos e jornalistas acentua até a qualidade do seu jogo; já a tristeza com que reage à perfeição do que faz e a indiferença perante a glória que oferece aos outros fere a sensibilidade de quem o conhece. Mas é o sofrimento patente na expressão distante de Rui Costa que devia encher o futebol de vergonha. A vergonha de não saber respeitar os seus ídolos.

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