Não está ainda devidamente estudada a relação de causa-efeito entre o discurso dos dirigentes clubísticos e o comportamento dos adeptos em jogos grandes. Num mero recurso à memória, diria que os discursos inflamados dos presidentes deram sempre origem aos menos recomendáveis espetáculos em torno dos relvados nas últimas décadas. Ao contrário, quando os presidentes se calam ou têm um discurso vago e construtivo, os polícias têm muito menos trabalho e o futebol quase se torna um belo espetáculo desportivo onde se pode levar a família.
Também não está devidamente estudada a perda efetiva para os clubes, e para o negócio futebolístico em geral, provocada pelo clima de guerra, que um Estado laxista deixa instalar pela mão de dirigentes sem visão de futuro.
O clima que rodeia os jogos entre os grandes clubes afasta consumidores, que poderiam ser o garante de receitas nos jogos de média intensidade. O futebol tenderá a uma contínua perda de receita enquanto se deixar transformar no único palco visível de hordas de bárbaros, que gozam de total impunidade durante esse dia de celebração pagã.
Enquanto o ambiente for este, no futebol nacional, tenderão a rarear os grandes patrocínios, com as melhores marcas a afastarem-se da colagem à imagem da queda do império da lei aos pés de guerrilheiros suburbanos sem causas para lá dos golos. Meros pretextos para violência gratuita.
Hoje, milhares de sportinguistas enfrentam o perigo físico numa viagem ao Estádio do Dragão. Centenas de polícias são retirados das ruas ou do descanso semanal, com custos financeiros e para a segurança de outras zonas do país. Muitos pais, mesmo portistas, deixarão, à cautela, os filhos em casa.
Ninguém diga que o futebol é isto.