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CONFLITO – Ao som do tiro de partida para a nova época, estala
normalmente um primeiro conflito, ainda por sanar, provocado
pela incapacidade do exterior – que importa decifrar co- mo sendo
o universo que integra adeptos, jornalistas e em certos casos
os próprios jogadores – em definir a fronteira que separa quantidade
e qualidade de trabalho. Existe acima de tudo um desfasamento
de interesses e conhecimentos entre as partes, partindo sempre
do único princípio possível: o de aceitar como boa a competência
de quem elabora e aplica o programa de treinos.
TONTURAS – Se há pouca bola e tardam as pistas tácticas; se sobram
corrida, tonturas, desmaios e dores que vão da cabeça aos pés,
é quase inevitável que quem trabalha mais tempo e com mais intensidade
seja apresentado como estando a trabalhar melhor. A qualidade
do treino no futebol foi responsável pela sua evolução, que tem
passado por mais saber e condições de trabalho e também pela
conscencialização cada vez maior dos jogadores. Quantos treinadores,
grandes craques de ontem, afirmam que se soubessem o que sabem
hoje teriam ido muito mais longe?
RAÍZES – É irrelevante saber se o crescimento do jogo esteve
à altura da sua grandeza e expressão popular; se respeitou a
memória do maior fenómeno do século XX; se não pisou já o risco
fatal de valores que o distorcem e quase renegam as suas raízes;
se não ridiculariza parâmetros, hoje insignificantes, que serviram
para alimentar uma história com mais de cem anos. O dinheiro,
os investimentos, os negócios, a bolsa e os lucros estimularam
a urgência dos resultados. Por caminhos em muitos casos desprezíveis,
tornou-se universal uma verdade recusada durante anos: o grande
jogador não tem idade.
COLHEITA DE 1972 – No espaço de um ano alguns clubes europeus
perderam a cabeça. Entre ganhar hoje ou amanhã, não tiveram dúvidas.
Recusaram todos os riscos e chamaram homens feitos, a caminho
dos 30 anos – durante décadas considerado o prazo máximo de validade
de uma estrela –, não como objecto de negociatas mas como mais-valias
técnicas. Quando o Real Madrid perde a cabeça por Figo (12 milhões)
e Zidane (13,8); o Milan contrata Rui Costa (8,8), a Juventus
se reforça com Thuram (8) e Nedved (7,8) e a Lazio se atira a
Rivaldo (9,5) está tudo dito. Incluindo que a colheita de 1972
foi extraordinária.
70 MILHÕES – Acrescentemos ainda o caso paradigmático de Gabriel
Batistuta, por quem a Roma pagou 7 milhões de contos à Fiorentina
o ano passado, quando o argentino já tinha 31 anos – a mesma
verba que o Milan deu por Inzaghi que, apesar da cara de bebé
chorão, já vai nos 28. Como o que não mata engorda, a urgência
de resultados, que tem explicado toda a espécie de atropelos,
valorizou a ala dos bravos do pelotão. Em menos de um ano, meia
dúzia de jogadores entre os 28 e os 31 anos fizeram movimentar
cerca de 70 milhões de contos. O futebol está mesmo a mudar.
"Em menos de um ano, meia dúzia de jogadores entre os 28 e os
31 anos fizeram movimentar cerca de 70 milhões de contos"