Gestão de ativos no futebol ou a "sexy buzzword"

Gestão de ativos no futebol ou a "sexy buzzword"

O mundo do futebol começou recentemente a utilizar a expressão “gestão de ativos” como sinónimo de boas práticas na exploração e rentabilização de recursos (um ativo é um recurso). No entanto, conseguiu transformá-la numa “buzzword”, ou seja, é uma expressão elegante, atrativa, sexy, e simultaneamente com falta de conteúdo em virtude da prática demonstrar que ainda há muito (senão quase tudo) para fazer no que diz respeito a uma “gestão de ativos” que cumpra com os seus desideratos. Para os cumprir colocam-se algumas questões:

A primeira questão é perceber-se o que é um recurso/ativo no futebol. O recurso/ativo é definido como o direito de um clube sobre algo que lhe permite aceder a benefícios económicos. A maioria dos autores escreve que existem dois tipos de ativos: tangíveis (estádio, campos de treinos, autocarro, dinheiro, etc.) e os intangíveis (jogadores, treinadores, marca, credibilidade, etc.).

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A segunda questão é o que torna um recurso/ativo numa vantagem competitiva para o clube. Segundo os manuais para o ser tem que possuir: valor, raridade/escassez, não ser fácil de copiar e de difícil substituição.

A terceira questão é como criar e rentabilizar recursos/ativos que reúnam simultaneamente a maioria destas quatro características. Por norma são os ativos intangíveis que reúnem estas qualidades e dentro destes no futebol sobressaem a marca e credibilidade do clube, os treinadores e os jogadores.

A marca e a credibilidade serão provavelmente os ativos de maior valor, estão diretamente relacionados entre si e ao mesmo tempo os mais negligenciados pela gestão. Observe-se a comunicação e as ações de alguns clubes e percebe-se que os gestores dessas instituições continuam a pensar que aquilo que os adeptos e os outros stakeholders querem é unicamente a vitória, esquecendo-se que os tempos mudaram e os adeptos e principalmente os patrocinadores não querem associar-se a falta de ética e credibilidade desportiva ou económica que comprometam as marcas.

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Os treinadores são dois em um, pois são um ativo devido ao seu saber e experiência e uma capacidade por transformarem o ativo “jogador” num “produto de elevado desempenho”, ou seja, num elemento vencedor. A ação dos treinadores é fulcral na valorização do ativo jogador. A criação e desenvolvimento de um jogador com elevado potencial em excelente é obra do persistente trabalho do treinador que conhece, sabe, partilha, planeia/executa e motiva. Penso não existir a necessidade de escrever sobre a forma como a maioria dos dirigentes gere o ativo/recurso “treinador”.

Os jogadores são a matéria-prima que treino após treino de esforçado trabalho e lapidação tornam o futebol no maior evento desportivo deste planeta. São o recurso/ativo que poderá proporcionar maiores benefícios económicos futuros ao clube através do seu desempenho desportivo, quer via receitas de bilheteira, merchandising, contratos de televisão, patrocínios ou alienação dos direitos desportivos. Desempenho desportivo é a pedra de toque na gestão deste recurso/ativo. Observe-se o seguinte: a) o jogador e a equipa estão simultaneamente em alta, os adeptos vão ao estádio e as equipas com maior poder económico interessam-se pela compra dos direitos desportivos do artista (ex. William Carvalho); b) somente o jogador está em alta, as equipas “ricas” interessam-se mas o valor do direito desportivo tende a ser pressionado para baixo (ex. Mangala); c) o jogador por alguma razão, independentemente do putativo valor de mercado é ostracizado pelo clube, o resultado deste exílio é ninguém desejar comprar quem está de “castigo” perdendo o clube um recurso/ativo em virtude da não retribuição de benefícios económicos (ex. Carlos Martins, Elias e Fucile). Há portanto que melhorar neste caso a relação umbilical entre jogador e clube valorizando-a, ou seja, mesmo em caso de desacordo entre partes a boa gestão eventualmente estará ligada à valorização temporária via desempenho desportivo seguida de venda imediata dos direitos económicos. O que se observa, por norma é a ostracização e o orgulho exacerbado a comprometerem o benefício económico.

A conclusão a que se chega é que a maioria dos clubes menciona amiúde a “gestão de ativos”, mas como o principal objetivo é o das vitórias desportivas a todo o custo, esquecem-se da maximização das receitas. Consequentemente, não praticam a “gestão de ativos” e ficam-se pelo jargão de uma “sexy buzzword”.

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