1 - Que no futebol a vida não é para juras de amor eterno a uma causa, estamos todos de acordo. O compromisso com a bandeira ou o símbolo que os jogadores transportam são cada vez menos sólidos, razão pela qual podem ser defendidos com talento acima da média mas não com a devoção de outros tempos. No Benfica a mudança de paradigma tornou-se gradual até ao momento em que perdeu elos de ligação culturais às origens. Luisão está em contraciclo porque, sendo brasileiro, remete para o apego aos valores da identidade comunitária, agora que a tendência universal é a de juntar peças de origens distintas, com o objetivo de dissolver essa diferença em coletivos o mais exaltantes possível.
2 - Nenhum outro estrangeiro viveu uma década com a águia ao peito, período que aproveitou para decifrar os códigos do clube e assimilar os princípios ideológicos dos adeptos. Soube ainda sacralizar o espaço do balneário e entender as raízes do país onde vive, o perfil do seu povo e do seu futebol. Luisão é hoje a âncora rara que, por carisma e liderança, mantém o Benfica ligado às raízes mais profundas que o identificam; é um estrangeiro com dez anos de casa que recusa fazer parte de um conjunto que seja apenas o reflexo de profissionais que falam a linguagem universal do jogo; de gente empenhada em ganhar (claro!), assente em qualidade técnica superior, mas cujos vínculos aos alicerces dos clubes que representam são voláteis ou mesmo inexistentes.
3 - Numa época de universalização, na qual as equipas são, cada vez mais, compostas por elementos de infâncias, bairros, gostos e vidas diferentes, o futebol produz o milagre de harmonizar e potenciar exércitos compostos por soldados unidos à volta de orgulho, ambição e autoestima. Num clube que só há 34 anos abriu as portas ao exterior, Luisão é o estrangeiro que mais longe chegou num determinado contexto de apreciação. Girafa já invadiu o território sagrado só habitado por portugueses de outras eras, a quem o Benfica deve boa parte da grandeza que hoje possui. Não acede à história por extraordinária qualidade como central (Félix, Germano, Humberto, Mozer, Ricardo Gomes, Aldair, Gamarra e David Luiz atingiram plano mais elevado) mas pelo modo como recusou ser fenómeno em trânsito para outras paragens e se comprometeu com a águia.
4 - Luisão pode ainda dimensionar a lenda como um dos futebolistas mais importantes da história encarnada. Já é o estrangeiro com mais jogos efetuados pelo Benfica e aquele que mais vezes envergou a braçadeira de capitão; em termos europeus já deixou para trás nomes eternos como Eusébio, Nené, Bento, Humberto Coelho e Veloso, e tem apenas Vítor Baía pela frente à escala nacional – o ex-guarda-redes tem 98 jogos europeus pelo FC Porto, enquanto o capitão benfiquista soma 90, tantos quantos o portista Jorge Costa. Luisão é um fenómeno feito de voz e maturidade; posição, tempo, organização e inteligência; jogo de cabeça e capacidade para se articular com o parceiro do lado. Se for campeão em 2012/13, será o primeiro jogador do Benfica a vencer três campeonatos no novo século. Isto é, será protagonista de um feito que remete para tempos que já lá vão.
Uma ave rara chamada Castro
Existem momentos de felicidade no futebol que extravasam o elevado valor da competição
Mais do que o golo em jogo decidido, Castro viveu em Coimbra um dos instantes mais felizes da vida. Quando o tiro forte e preciso levou a bola a entrar na baliza da Académica, foi como se tivesse visto um filme de 25 anos de existência. Sentiu então que tinha cometido proeza inesquecível (primeiro golo na Liga pelo FC Porto), envolvendo na festa antepassados, família e amigos, aqueles que podem medir o significado que atribui à história por detrás do dragão que traz ao peito. Há cada vez menos jogadores como Castro. A falta que eles fazem ao futebol.
Só não vale o oportunismo
Diz a experiência que as críticas aos especialistas do último toque requerem muito cuidado
A única forma decente para analisar os goleadores é suportar a opinião com argumentos sólidos, mesmo correndo riscos de parecer desenquadrada da realidade. Tal não é fácil de conseguir. Difícil não é gostar de um avançado que faz 3 golos em vitória por 3-2; correto é manter convicções quando elas são inversamente proporcionais ao rendimento do jogador; grande é gostar de Van Wolfswinkel em pleno jejum prolongado ou não gostar dele mesmo depois da epopeia bracarense. Só não vale o oportunismo de andar ao sabor do vento. Porque esse leva incorporado a falta de respeito.
Extraterrestre entre cowboys
Tudo acontece quando equipas pequenas com ideias grandes perdem o estado de graça
O Rio Ave de Nuno Espírito Santo, que entrou na reta final de época brilhante, já não terá muitas armas para travar a curva descendente iniciada há algumas semanas. Mas enquanto tiver Bebé tudo pode acontecer. O jovem (22 anos) que o Man. United emprestou aos vila-condenses faz a diferença quando menos se espera – chega a parecer um extraterrestre em filme de cowboys. Tem seis jornadas para colher ainda mais frutos das ameaças que anda a semear. E já não precisa sequer de marcar um golo como o que Artur lhe negou na Luz para ter valido a pena vê-lo jogar na Liga portuguesa.