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Michelle Brito fez uma campanha sensacional em Roland Garros. Nunca um tenista português havia conseguido ser tão bem sucedido numa prova do Grand Slam. E mesmo no plano internacional, não são muitos os que se podem gabar de, aos 16 anos, ter partido da fase de qualificação para atingir a terceira ronda do quadro principal de um dos principais quatro torneios mundiais. Isto, por si só, merecia amplo destaque. Porém, um pouco por todo o lado, especialistas e curiosos da modalidade optaram por centrar a discussão em torno dos gritos que a jovem dá quando bate na bola, em vez de analisarem o seu imenso potencial. Enfim, são opções.
Sejamos claros: é legítimo que adversárias, público e imprensa não apreciem o barulho que Michelle faz desde que começou a jogar, da mesma forma que sempre houve quem torcesse o nariz aos berros de Monica Seles, Maria Sharapova e outras. Mas, daí a considerar que os gritos são uma estratégia para perturbar as opositoras ou que a WTA devia intervir na questão é... absurdo. Ao avançar por aí, estaremos a abrir caminho para, no futuro, questionar quantas vezes os atletas batem a bola antes de servir; definir um número aceitável de situações em que se solicita a toalha para limpar o suor ou, mais interessante ainda, definir quantos (e quais) tiques são regulamentares!
Quem considera estar em desvantagem por do outro lado da rede ter uma adversária que grita muito pode sempre entrar em campo com protecções nos ouvidos. Não creio que seja proibido. Irregular devia ser ouvir autênticos disparates por parte de actuais e antigos praticantes. O norte-americano Johm McEnroe, por exemplo, foi sarcástico nos comentários que fez em relação aos gritos de Michelle. Coitado. Por ventura, seria melhor ver a portuguesa imitar as atitudes patéticas que ele tantas vezes protagonizou? Ou trocar os gritos pelas "expressões educativas" de que se servia em quase todos os encontros?
Se Michelle fosse uma jogadora vulgar, se perdesse todos os torneios na primeira ronda, ninguém estaria preocupado com os seus gritos. O que faz muita gente andar de volta do tema é constatar que, com 16 anos, a lisboeta revela uma qualidade espantosa. Ela que melhore consideravelmente o serviço e veremos até onde poderá chegar. Com ou sem gritos... Para já, com classe e maturidade, respondeu bem a quem a questionou sobre o assunto. E nem o cumprimento "de lado" a Rezai merece ser criticado. O desportivismo não deve surgir apenas no final da contenda. Se a portuguesa foi incorrecta nesse momento, o que dizer das constantes queixinhas da adversária no decorrer do embate?
O ténis, de uma vez por todas, devia deixar de cultivar este sentimento "snob" que sempre o caracterizou. E não falo apenas dos gritos dos atletas, mas sim de todas as mordaças que ainda persistem. O desporto é sinónimo de festa e com toda a sinceridade não conheço nenhuma que se faça em silêncio. Os defensores da pureza da modalidade que me desculpem, mas para mim é tão ridículo questionar os berros de uma jovem jogadora como observar os espectadores sem proferir uma palavra antes do serviço ou durante a disputa de um ponto. Aquilo não é um serviço religioso, nem sequer ópera ou declamação de poesia.
E não me venham falar da necessidade de concentração dos atletas. Isso é tão válido para o ténis como para qualquer outra modalidade. Se um tenista precisa de grande poder mental antes de servir, o mesmo se aplica para um futebolista antes de bater um penálti, um basquetebolista quando tem lances-livres à disposição, um andebolista no momento em que dispõe de um livre de 7 metros ou um voleibolista quando tem de pontuar com 23-24 no marcador.
Qualquer atleta de eleição tem de ser forte psicologicamente. Logo, não podem ser os ruídos do público que o deitam abaixo. Quem sustenta isso está, pura e simplesmente, a querer esconder as suas próprias debilidades. E dá sempre jeito ter desculpas para as derrotas. Depois das condições atmosféricas, do horário, da qualidade do piso, da arbitragem e de mais não sei quantas artimanhas, agora até os gritos servem. Haja paciência!