1. No final do jogo com o V. Setúbal, em Vila Real de Santo António, eleito melhor em campo e autor dos dois golos da vitória benfiquista, Roger teve um assomo de irreverência e, finalmente com um sorriso nos lábios, relembrou os tempos em que agiu como líder de um pelotão que não o ouvia: "Joguei na minha posição e vocês viram o que aconteceu." Tudo verdade: o brasileiro obteve a carta de alforria pela qual sempre lutou; cumpriu as tarefas solidárias dentro de limites aceitáveis; decidiu o jogo e confirmou que é um futebolista genial. Dito de outra maneira, confirmou que a operação aritmética no plantel encarnado não pode partir do sonho irreal de obter resultados da soma Roger+Zahovic, mas da decisão complicada de ter uma equipa construída ou à volta de um ou de outro.
2. A questão das incompatibilidades no futebol é antiga e não tem só a ver com o perfil técnico dos jogadores, muito menos com as suas funções em campo. Há exemplos curiosos que provam a diversidade de casos em que a realidade se sobrepôs à ficção: em 1974, já em pleno Campeonato do Mundo, Beckenbauer, defesa e líder do Bayern Munique, tratou de mandar Netzer, médio e líder do Borussia Moenchengladbach, para o banco dos suplentes, suportado na simples convicção de que uma equipa não pode ter dois líderes, sob risco de dispersar a autoridade; em 1986, Maradona fechou liminarmente a porta aos avançados Ramon Diaz e Claudio Borghi, só porque dizia que não se entendia com eles; em 1998, Aimé Jacquet defendeu a concepção do projecto que levou a França ao título mundial afastando os perigosos subversivos Cantona e Ginola.
3. A questão que envolve Zahovic e Roger é outra, porque tem um perfil técnico indiscutível e requer definição de funções até agora adiada – excessivas semelhanças nas características, nas virtudes e nos defeitos. Um treinador pode formar uma equipa com dois centrais, dois laterais, dois pontas-de-lança, dois extremos e dois médios-centro – e há até o caso de Petit que, antes do Mundial, disse à sua maneira o mesmo que Redondo defendeu há meia dúzia de anos: "Com um companheiro ao lado é como se me tapassem um olho." Mas só com muita ginástica, de resultado duvidoso, poderá compatibilizar duas unidades criativas, porque só há uma bola em campo: há cinco anos, Paulo Nunes atrapalhava João Pinto e os dois anulavam-se sem dar por isso; há um ano, o Real Madrid vacilou entre Zidane e Rui Costa, e optou por um só; hoje, Deco sente-se mais livre na ausência de Alenitchev e a equipa vive mais confortável guiada por apenas um deles.
4. Quando Toni, na época 2000/01, o colocou em dois ou três jogos no flanco esquerdo, Roger anunciou publicamente, sem medo das palavras e optimista quanto ao futuro, convencidíssimo do estatuto superior num grupo que afinal não o compreendia e até o rejeitava, que junto à linha jogava só para fazer a vontade. O que mudou no jovem imaturo, a viver a sua primeira experiência no estrangeiro e a passar por problemas familiares graves, é que hoje Jesualdo Ferreira o coloca na direita e ele cumpre o melhor possível, em silêncio e sem pisar o risco do bom comportamento. Porém, fale ou não aos microfones, traz escrito na cara que num flanco ou noutro só está mesmo a "quebrar o galho".