DEVOÇÃO – Havia uma sensação estranha no ar, só decifrada quando o circo ganhou a forma que entusiasma as bancadas. As equipas entravam em campo, os suplentes dirigiam-se para o martírio que tentam evitar durante a semana e com eles vinham os treinadores. Os adeptos do Milan esperavam Alberto Zaccheroni que, meses depois de ter sido despedido, se estreava em S. Siro como técnico da Lazio. Entre a saída do túnel e o seu lugar percorreu cerca de 50 metros. Foi cumprimentado com devoção por dirigentes, médicos, massagistas, tratadores da relva, apanha-bolas e só a vedação do estádio impediu que porteiros, arrumadores e vendedores de refrigerantes fizessem o mesmo.
GRATIDÃO – Era a prova definitiva de que futebol e gratidão não têm necessariamente de viver de costas voltadas. Mas como explicar esta emotiva e generalizada reacção de um dos maiores clubes do Mundo? Por Zaccheroni ser um homem bom, amigo do seu amigo, em suma, por ser aquilo que, se fosse cá na terra, designaríamos por tipo porreiro? Não, Zac fez grande trabalho no Milan, confirmou talentos, excedeu expectativas, foi campeão e fez história. Muitas das pessoas que choraram de felicidade ao revê-lo agora, espumaram de raiva, pedindo a sua cabeça, quando a bola teimava em entrar apenas na sua baliza.
COBARDIA – O que está em causa na relação do treinador com um clube, para além da competência do treinador, é a convicção das ideias e a firmeza de quem comanda. Quando um dirigente treme aos primeiros assobios; não dorme na noite seguinte aos primeiros lenços brancos e a primeira coisa que faz a seguir a ter decidido que o técnico será despedido é jurar que lhe vai dedicar amor eterno, falamos de uma espécie de cobardia muito comum no futebol, aquela que levou figuras do nosso dirigismo a tomar a opção de viver na corda bamba.
GRITO – Dito de outra maneira, tornaram-se banais nestes tempos de loucura colectiva os dirigentes de grandes clubes que para salvar a pele preferem andar de vitória em vitória até à derrota final. Há momentos na vida de um presidente em que o problema se depara e tem de ser resolvido: ou a cabeça do treinador ou um grito que abafe a contestação e ponha a casa em ordem. O caso português, na última década, ou seja, desde 1991/92, é exemplar. Neste período, o Boavista viveu nove épocas com apenas dois técnicos (Manuel José e Jaime Pacheco) e é campeão nacional. Alguém acredita que seja por acaso?
HIERARQUIA – Bobby Robson, António Oliveira e Fernando Santos garantiram mais de sete anos no comando do FC Porto. Três treinadores tiveram Sporting e Benfica só na época 2000/01, todos eles entrando e saindo por razões diversas, mas unidos na indiscutível vulnerabilidade de clubes à procura de identidade. Quando os responsáveis se convencerem de que em vez de despedirem treinadores por simples cobardia – indemnizando-os depois com elogios e algum dinheiro – devem resistir a todas as tentações para evitar que as casas em construção desabem sobre si próprios, talvez seja possível hierarquizar as equipas de cada campeonato apenas e só pelo que valem os seus jogadores.