A sorte não o desacompanhou nos momentos mais sensíveis da carreira, razão pela qual nunca foi prejudicado por circunstâncias capazes de diminuir potencialidades e interferir no seu crescimento. Feita a formação em FC Porto (entre os 9 e os 10 anos) e Sporting (até à chegada a profissional), João Mário teve a sorte de, nos últimos três anos, incluindo os meses em que esteve no V. Setúbal, ter sido orientado consecutivamente por treinadores que sobrepõem talento à luta; atrevimento ao conservadorismo; espírito criativo e tendência ofensiva à mentalidade destrutiva de quem pensa o futebol entregando a iniciativa ao adversário. Nada que surpreenda os mais atentos, que o referenciaram em tenra idade e lhe traçaram o destino: mesmo não sendo um fenómeno de habilidade e magia, tinha o perfil certo para jogar numa grande equipa.
JM é, ele próprio, uma enciclopédia futebolística nos terrenos onde tudo se concebe e decide e é também uma esponja que absorve todas as lições dos treinadores que o orientaram. Internacional desde os sub-16 até à Seleção principal (um total de 79 jogos), soube abordar cada etapa do percurso para se fortalecer. José Couceiro, Marco Silva e Jorge Jesus são nomes do processo em curso e que pode terminar na construção de uma referência para o futebol português. Pela segurança com que está em campo, JM faz o que sabe e o que lhe mandam sem sofrimento. Não atraiçoa a equipa, tem resposta para cada contingência do jogo e dá saída aos benefícios concedidos pela natureza. Desafia o erro, não teme as recriminações do treinador e os assobios das bancadas; ouve as ordens, entende sempre o que lhe pedem e adapta à sua imensa bagagem o cumprimento escrupuloso da tarefa.
O jogo nunca o apanha de surpresa ou numa situação desarmoniosa; a expressão facial reflete a tranquilidade de um monge budista que recusa correr riscos. A relação com a bola é a mesma que mantém com o jogo, alicerçada na inteligência, na segurança de processos, na técnica superior e na visão sumptuosa de quem vê a peça no primeiro balcão. Dali pode não sair o truque de magia que exalta a plateia e se perpetua no tempo pela repetição exaustiva das imagens televisivas; mas já sabemos que a coordenação motora, a precisão dos gestos e o acerto das decisões lhe conferem o estatuto de enorme jogador. Mesmo sem a fantasia do engano, JM é um condutor perfeito, com ideias claras, assente no domínio absoluto da cartilha dos grandes. Só um craque pode andar em zonas de alta tensão, entre barreiras eletrificadas, com minas e armadilhas espalhadas por todo o lado, como se estivesse a passear no quintal de sua casa. Não há muitos jogadores em Portugal a fazê-lo com o mesmo brilho e eficácia.
Aos 22 anos é um médio multifuncional, que sabe estar no meio e nas alas; que é útil com e sem bola; que não se deslumbra nas vitórias nem se deprime nas derrotas; capaz de promover uma caçada impiedosa ao adversário que toma a iniciativa mas também de iluminar a chegada a zonas de finalização. A sua arte permite-lhe valorizar o futebol como escola de vida, que recusa elementos extremos como pressa, despudor, descontrolo emocional, relaxamento e desconcentração competitiva. Integrado num vasto lote de excelentes opções para a equipa de Jorge Jesus, JM é daqueles raros futebolistas dos quais um treinador não abdica em circunstância alguma: porque tem talento, ameaça e desequilibra a atacar e porque é comprometido, solidário e inteligente a defender; porque o êxito não o imbeciliza e a derrota não o debilita de forma alguma. Na estrela futebolística de JM brilham as pontas de empenho, simplicidade, disciplina tática, versatilidade, talento e uma técnica sem pompa mas que, de tão pura e cristalina, tem o mesmo efeito das invenções dos artistas mais aclamados.
Eliseu merece mais respeito
Os jogadores são os primeiros a sentir a opinião do líder sobre o seu talento
Eliseu debate-se, desde o início da temporada, com as reservas de Rui Vitória sobre as condições técnicas e físicas para ser titular do Benfica. Por isso, para o lateral-esquerdo encarnado é quase irrelevante a notícia de que o clube mantém acesa a vontade de resgatar Siqueira ao Atlético Madrid. O ex-Málaga não tem um percurso imaculado na Luz. Mas o desejo de descartá-lo está a ir longe de mais.
Imbula não será um caso trivial
Em condições normais seria um jovem (23 anos) em fase de adaptação
Imbula só mostrou talento avulso em função que exige regularidade, liderança, compromisso e influência. Já se viu como joga e, projetando o que fez em momentos de poucos jogos, dá para ter uma ideia sobre o que pode representar na equipa de Lopetegui. Falta ainda vê-lo assumir na plenitude o papel para que foi contratado. O problema é que um jogador de 20 milhões de euros pode ser tudo menos um caso normal.
Falcão luta com os seus limites
Uma lesão grave bastou para virar do avesso a carreira de um fenómeno
Falcão vai no segundo desaire seguido, ditado por treinadores de topo: Mourinho (no Chelsea) depois de Van Gaal (no Man. United). Avançado notável, acrobata dos golos mais inacreditáveis, o colombiano apagou a estrela que o iluminava. Dói que tal suceda a um homem inatacável no profissionalismo, pelo que o fracasso tem origem mais profunda: aos 29 anos, pode estar a ser derrotado pelos seus limites.