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SEMPRE teve os traços que distinguem os maiores artistas do futebol: talento superior, apuradíssimo instinto de sobrevivência, malandrice e picardia em doses suficientes para traduzir com fidelidade o espírito de quem nunca passou por berços de ouro. Um dia, ao olharem para ele, desfocaram-lhe a imagem e viram-no de bandeira na mão, contestatário aos planos de quem ditava as regras, assumindo o papel do político que nunca foi, líder imaginário de uma estratégia conspirativa que jamais lhe passou pela cabeça.
Dispensado por um clube em crise, do qual era, a larga distância, o melhor jogador – dispensa que teve o aval técnico inacreditável de um treinador (Heynckes) afinal vocacionado para dizer que sim a tudo, até perceber que só a mal teria alguma hipótese de ver o dinheiro que lhe deviam –, João Pinto não reencontrou apenas a alegria de jogar futebol no momento de atravessar a rua: libertou-se de todos os fantasmas que o atrofiavam e recuperou a memória do génio que há dentro de si.
Retomou então o estatuto de melhor jogador da I Liga; venceu todas as desconfianças possíveis em jogadores nas suas circunstâncias; sem forçar voltou a sentir-se reconhecido por todo um clube, iniciando uma relação de amor estabelecida apenas em função do seu futebol; por último, livre e feliz, encurtou as distâncias que começavam a ser significativas para os mais ilustres elementos da "geração de ouro", reocupando o lugar que sempre lhe pertenceu por mérito próprio.
João Pinto conseguiu, à custa da melhor época de sempre, retocar a qualidade do seu jogo e aproximá-lo ainda mais da perfeição. Pôde, assim, conciliar conceitos que nem sempre andam de mãos dadas: talento e regularidade. A vitória no prémio "Melhor de Record" é apenas a confirmação do momento absolutamente esplendoroso vivido por um dos melhores futebolistas portugueses de todos os tempos, capaz de fabricar em cada jogo, ao longo de uma época inteira – de Agosto de 2001 a Abril de 2002 –, duas ou três obras de arte definitivas que fariam a felicidade de muitos se as conseguissem uma ou duas vezes por ano.