Mestres do dérbi

Mestre do dérbi

1 - O treinador não é ator dos seus sonhos. Quando imagina o jogo, projeta o plano e define a estratégia, recorre à cabeça e aos pés dos futebolistas – ao seu talento, inteligência, gestos e movimentos. Enquadra o rio mas não tem certezas quanto ao ímpeto da corrente e ao local onde vai desaguar. Para Johan Cruyff só há duas espécies de generais do banco: os que treinam e os que ensinam. César Luis Menotti acrescenta visão sobre o mesmo tema: “Um treinador vê-se nos progressos dos seus jogadores. Se um futebolista tem sempre os mesmos defeitos e as mesmas virtudes, é porque não tem um bom treinador”. Os mestres do dérbi eterno cumprem, na íntegra, os pressupostos exigidos pelos dois monstros do futebol mundial.

2 - Jorge Jesus trouxe respostas para questões delicadas. Agora que está a concluir a quarta temporada na Luz, importa reconhecer que, apesar dos vários erros, respeitou a história benfiquista e a identidade coletiva que os adeptos defendem como se fosse um mandamento sagrado; percebeu ainda que, em clube tão apegado às origens, era impossível abdicar da sensibilidade que acompanhou o trajeto centenário, muito menos contrariar a estética cravada no seu código genético. Seguindo a ideia de Menotti, a força de Jesus está traduzida no modo como dimensionou o talento de jogadores e gerou riqueza para o clube; como recuperou estrelas cadentes (Aimar e Saviola) e transformou jogadores desacreditados em estrelas mundiais (Fábio Coentrão, Di María, David Luiz, Javi García, Matic...). Aos 58 anos, tornou-se uma referência europeia.

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3 - Jesualdo Ferreira é o mestre que treina e ensina; que gere e acrescenta; que se adapta à realidade mas consegue moldá-la às suas ideias e convicções. Para lidar com uma equipa jovem e angustiada, para devolver o futebol à condição de jogo e dar sentido de orientação aos seus intérpretes, fazem falta pedagogos que assumam o papel de professores, que levem confiança onde existe medo e ambição onde o comodismo começa a imperar. Jesualdo tem apetrechado os seus jogadores com bases sólidas de conhecimento e indicou-lhes o caminho para serem melhores. Está a consolidar o processo de reabilitação, dando homogeneidade às diferenças individuais, tornando-as solúveis no jogo e na produção coletiva. O Sporting atual prova que há fragilidades e insuficiências que só se ultrapassam com vitórias.

4 - O dérbi não decidirá o título mas clarificará o futuro. Jorge Jesus trabalha para acomodar-se na galeria dos melhores treinadores da história benfiquista. Se conseguir dois títulos em quatro épocas e der ao clube uma vitória europeia, mais de 50 anos depois das gloriosas conquistas dos anos 60, ganhará direito a figurar no patamar de mitos como Otto, Guttmann, Hagan, Eriksson e Toni. Com uma diferença: ao contrário dos outros, que aproveitaram a conjuntura favorável, o êxito de Jesus sucede em plena hegemonia do FC Porto. Quanto a Jesualdo, aos 66 anos, ninguém acredita que o Sporting faça depender a sua permanência da obtenção de um lugar europeu. Perante a situação que o clube vive, não fará sentido ter o homem certo para gerir a crise e deixá-lo pelo caminho, como se fosse ele o culpado de crimes que outros cometeram.

Vítor Pereira está mais forte

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Se um treinador só convence nas vitórias, é porque vive com um pé dentro e outro fora do clube. Vítor Pereira já confirmou conhecimentos para treinar uma grande equipa e, em 2012/13, acrescentou-lhe um forte investimento no discurso e na imagem. É hoje um treinador muito melhor. Depois do que está a suceder-lhe, porém, deve interpretar os sinais exteriores de insatisfação. Se for campeão nacional, ganhará tréguas e até pode ser levado em ombros. Mas a reconciliação só vai durar até à próxima derrota. Não é justo. Mas são essas as regras desta vida.

Prémio merecido para José Peseiro

Tem sido fácil denegrir-lhe o talento especial para pôr equipas a jogar futebol de altíssima qualidade. E isto porque os elogios feitos por quem com ele trabalha não têm correspondência nos resultados obtidos.

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Quebrado agora o enguiço, com a vitória sobre o FC Porto, a ameaça tornou-se real para aqueles que só veem mérito em currículos preenchidos: se a competência continuar a ser premiada com conquistas marcantes, como é justo que suceda, será por certo mais fácil tomar consciência de que, hoje como ontem, José Peseiro é um dos melhores treinadores portugueses da atualidade.

Pep em Munique vai correr riscos

A ideia que impulsionou a contratação de Guardiola não estará relacionada com o desejo de mudar o estilo e por uma equipa alemã, assente em talento retilíneo, a jogar como se estivesse familiarizada com o tiki-taka do Barça. Pep não precisa de explicações para sustentar a sua contratação – qualquer clube do Mundo, se pudesse, tê-lo-ia nos seus quadros. O problema é que o Bayern está a jogar e a ganhar como nunca, não sendo de excluir a hipótese de conquistar a Champions. Se isso acontecer, a pergunta do adepto comum fará todo o sentido: “O que vem este tipo para aqui fazer?”

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