Mistérios à volta do golo

1. O Mundo parou de repente mas ele não obedeceu; a primeira imagem foi de pânico pela sufocante pressão do adversário, a segunda tinha as marcas da urgência - era fundamental sair dali o mais depressa possível. Paulo Assunção arrancou então da grande área e correu como um louco pelo campo fora à procura dos companheiros que não viu; a meio da viagem, numa zona menos militarizada, desacelerou para pensar um pouco e tomar decisões. Virou à direita, sentiu conforto ao verificar que o sentido de orientação não o levara para becos sem saída e prosseguiu o caminho com a convicção de um iluminado: tinha encontro marcado com a glória. Quando chegou ao destino, já em velocidade de cruzeiro, fez o último desvio, deu as boas-tardes ao guarda-redes e entrou sem pressas pela baliza dentro. Um esclarecimento para os mais distraídos: a bola acompanhou-o até ao fim da cruzada. O golo, naturalmente, foi inesquecível.

2. Sendo o dado mais objectivo do futebol (mas não o único); exemplo perfeito da quantificação que estabelece hierarquias (nem sempre com justiça); base que sustenta as mais variadas opiniões (incluindo as disparatadas), o golo encerra em si próprio mistérios que nem os números conseguem decifrar. Paulo Assunção, por exemplo, candidatou-se a um lugar na História, ao serviço do Nacional da Madeira, com argumentos que a estatística desvaloriza - marcou em Paços de Ferreira o primeiro golo da sua carreira profissional. Por outra via, a mesma discrepância vale para Mário Jardel, o fenómeno que mantém o espectro da desgraça e alimenta a imagem do futuro incerto: com ou sem "penalties", leva 11 golos na SuperLiga, mais um que Hélder Postiga e mais dois que Nuno Gomes, os avançados portugueses em maior evidência ao longo da temporada, mesmo com os altos e baixos registados na sua expressão global - os pontas-de-lança têm o condão de aparecer aos nossos olhos como as acções da Bolsa.

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3. Jardel tem pouca precisão no passe e raramente domina a bola à primeira; não dribla porque não sabe e não recua porque atrapalha; é generoso no que se propõe oferecer mas é egoísta por natureza - se tiver uma probabilidade em cem de fazer golo, jamais dará a bola a alguém. Aparentes defeitos de futebolista, virtudes de um determinado tipo de goleador, fiel intérprete do temperamento felino com base na resistência à solidão e ao tédio; na concentração intocável apesar da inércia; na certeza cirúrgica com que avalia quase todas as situações passadas à sua volta. Super-Mário é um predador feito de inteligência, coragem, movimento e intuição, daqueles que matam com um só golpe. Postiga e Nuno Gomes são de outra raça: têm visão e estilo de centro-campistas, são mais hábeis a dominar outras áreas e só depois possuem o espírito frenético que os torna perigosos na zona de finalização. São muito mais criativos, a bola obedece-lhes com mais facilidade mas, parece inevitável, estão condenados a marcar menos golos.

4. A reflexão que os números da SuperLiga sugerem é interessante, por contrariar o senso comum, isto é, aquilo que vemos e registamos todas as semanas. O pior Jardel marca mais que o fabuloso Hélder Postiga, já referenciado por meia Europa; supera, à luz da estatística, o peso relativo de um Nuno Gomes melhor jogador a cada dia que passa, mas que no Benfica está atrás do extremo Simão e do médio Tiago. Isso não torna o sportinguista (indecentemente afastado do "derby" de amanhã) melhor ou mais apetecível; significa apenas que é um especialista do acto mais difícil do jogo, talento do qual a equipa nem sempre tira benefício. Se quisermos entender a extensão do que está em causa bastaria recorrer a Bölöni, Mourinho e Camacho, perguntando-lhes até que ponto estão satisfeitos com os seus goleadores. Mistérios de um mundo raro, em que a matemática se alia à dúvida. Derlei, por exemplo, tem quase o dobro dos golos, em meia dúzia de jogos na Taça UEFA, do que em perto de 30 presenças na SuperLiga. O futebol, apesar de várias tentativas, nunca será uma ciência exacta. Ainda bem!

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