Andamos há mais de um ano a dizer que “a culpa é dos mercados”. Mas quando podemos, portamo-nos como eles. Exigir 8% para comprar obrigações do Porto é especulação?
Este exemplo do Porto é claro para compreender o que são, afinal, “os mercados”. Ontem, o Porto comemorou 13 anos de cotação em Bolsa. Se as ações tivessem o desempenho da equipa de futebol, os acionistas da Porto SAD estavam hoje a passear de jato privado com o Cristiano Ronaldo. Mas se as ações (isto é, capital próprio) dão pouco, as obrigações (ou seja, capital alheio) dão muito. 8% ao ano é o dobro do que estão a pagar neste momento os melhores depósitos a prazo. E porquê? Porque o risco das obrigações do Porto é superior ao risco dos depósitos. Diz quem? Dizem os mercados.
A colocação de obrigações feita ontem pelo Porto foi um sucesso: para uma oferta de 10 milhões de euros houve procura de quase 100 milhões, o que levou a um rateio de 10 vezes. No total, houve quase três mil investidores que se inscreveram para comprar estas obrigações, ou seja, que emprestaram dinheiro ao Porto a três anos, por 8% ao ano. (Bom, 8% brutos, o que dá 6,37% de rentabilidade líquida, pois o Estado também quer o seu quinhão).
Quando Portugal passou a pagar mais de 7% por títulos de dívida pública, tornou-se óbvio que a situação era insustentável. Então, muitos disseram que os mercados estavam a especular “contra” Portugal (e muitos estavam mesmo), o que era uma ignomínia. Mas esta colocação do Porto mostra que a SAD teve de pagar 8% para atrair os investidores, a maioria dos quais é portuguesa. Ou seja, os credores, investidores, especuladores – escolha você mesmo o termo – somos nós. Nós somos os mercados. E o Futebol Clube do Porto não se queixou. Nem um bocadinho.