1 - Nunca se deixa vencer pela resignação e combate a negligência com convicções fanáticas; mastigada a desilusão inicial, aceitou o desafio de triunfar em território desconhecido; orientado pelas regras apertadas do futebol europeu, Lisando López sofreu com uma adaptação dificultada por sucessivas lesões, até reunir dados para confirmar, fora de portas, o estatuto de um dos melhores avançados argentinos. Para tanto, bastou-lhe recuperar a saúde e sentir que a equipa tinha encontrado mais argumentos: uma dupla de centrais (Pepe/Pedro Emanuel); um barómetro (Paulo Assunção) e a deslumbrante explosão de dois craques à escala mundial (Lucho e Quaresma) – já não falta tudo para reactivar a máquina de ataque prometida (e entretanto esquecida) por Co Adriaanse.
2 - Como não tem vocação solitária, sofre em equipas sem processos de jogo devidamente estimulados; mesmo tendo argumentos individuais para sustentar a livre iniciativa, prefere orientar-se por uma ideia global e participada. É um agitador inteligente, corajoso, frenético e coordenado; rápido, agressivo, abrangente e possuidor de argumentos técnicos para todos os gostos; um futebolista com ambição controlada, que se compromete com a camisola e acredita sempre no seu potencial. Lisandro perturba com a bola no pé e é generoso a procurá-la; sendo exuberante em tudo quanto faz, racionaliza os ímpetos e obedece aos padrões pré-definidos na sua integração colectiva. Passa hora e meia a correr ininterruptamente mas, quando decide, tem o cálculo, a frieza e o raciocínio de um jogador de xadrez.
3 - Lisandro López atravessa fase particularmente feliz da sua carreira portista, ultrapassadas as debilidades temporárias que o diminuíram, prova de que nunca perdeu o rasto à esperança. Deixou de ser um sobrevivente ao infortúnio para alimentar o prazer de jogar futebol; venceu o desempenho minimalista e profissional que marcou os primeiros tempos no Dragão e assumiu toda a paixão pelo jogo. Digerida a desconfiança, venceu a burocracia de lesões, recuperação e aparições precárias, para dar início à aventura da afirmação plena. E o que foram lampejos intermitentes de talento fazem agora parte da luz intensa que ilumina o espaço de ataque do FC Porto. Lisandro é hoje o sol clarividente que rompe as sombras de dúvida e decepção que nublavam o horizonte de uma equipa atacada pela mediocridade.
4 - Mais vocacionado para a guerra do que para a paz, sacode a indiferença, orienta vontades e canaliza energias para o objectivo comum. Guiado por notável instinto simplificador, é a peça que multiplica as intenções ofensivas e aumenta as probabilidades de êxito; que pode exercer como intermediário entre a equipa e o ponta-de-lança, como artista que pinta números a partir das faixas laterais ou até como avançado breve e letal, que se impõe a um toque na geografia do golo. Assente no deambular enigmático, Lisandro é um ciclone misterioso, sintonizado com as necessidades climatéricas da equipa; um jogador que, na mesma noite, pode ter a ideia (jogando mais recuado), assinar os quadros (perigoso nas alas) e cobrar direitos de autor (eficaz como avançado-centro). É, por tudo isso, uma preciosidade de valor incalculável.
FLANCO DIREITO
O ADEUS DE ROGÉRIO - Dele não ficará a memória perpétua, esse destino das estrelas que chegam, brilham e partem deixando um rasto luminoso para a eternidade. Rogério será recordado como bom jogador e grande profissional. Na despedida, lesionou-se e abandonou o relvado em lágrimas, enquanto as bancadas se levantavam rendidas à eloquência do adeus envolto em inesperado sofrimento. Um momento inesquecível para quem o viveu.
NÃO É PRECISO EXAGERAR - Miguelito é o melhor lateral-esquerdo português da Liga e tem desempenhado outro papel de relevo: é a estrela à volta de quem, a partir de terrenos mais adiantados e interiores, o Nacional diversifica alguns processos ofensivos. Na Luz começou como avançado-direito e cumpriu. A polivalência qualificada é uma dádiva para qualquer treinador. Só não é preciso cair em exageros capazes de prejudicar o próprio jogador.
O QUE DISSE KLINSMANN - Temendo por não jogar com regularidade, Robert Huth admitiu o empréstimo em Janeiro, de modo a salvaguardar a presença no Mundial. Jurgen Klinsmann, o seleccionador da Alemanha, entrou em acção e aconselhou-o a não mudar de equipa, porque o lugar não está em perigo e mais vale o banco do Chelsea do que a titularidade noutro sítio. Eu traduzo, para quem não percebeu: “Deixa-te estar nas mãos do mestre, aprende tudo quanto puderes e, depois, não me escondas nada.”
A QUEM PERTENCE O FUTEBOL
A crise de Setúbal levanta questão pertinente: afinal, de quem é o futebol? Sendo verdade que, do mais alto dirigente ao jogador menos conhecido, todos reclamam a sua quota-parte de propriedade, o futebol continua a pertencer aos adeptos – e os do Vitória Futebol Clube consideram sagrada a sua história de 95 anos. Serão eles os juízes de promessas não cumpridas, êxito desportivo inesperado e rombos na estrutura técnica. Só então teremos ideia de como foi possível uma equipa jogar como se nada acontecesse num sítio onde tudo se estava a passar.