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O bom malandro do novo líder

1. Tem um ar disperso e deselegante, acentuado pelas meias em baixo, a camisola fora dos calções e o estilo rebelde que choca, à primeira vista, com o perfil uniforme de um conjunto que segue escrupulosamente o guião definido pelo treinador. Wender é um toque de ironia permanente na grande máquina de jogar futebol em que está transformado o novo líder da SuperLiga; é a expressão máxima de talento num colectivo que assenta nos pressupostos de ordem, coerência e unidade. As impressões iniciais, que sugerem algum desfasamento com os princípios básicos da causa comum, não lhe fazem toda a justiça e o tempo acaba por confirmá-lo como solução milagrosa para questões pendentes nas zonas de aproximação à baliza.

2. Wender é precioso pela forma como se torna ainda mais rápido com a bola nos pés e conquista espaço com dribles ou tabelas que agilizam a progressão. O perigo aumenta sempre que é chamado a intervir, porque melhora a produção dos companheiros mais próximos; revela primoroso tempo de passe; joga bem de cabeça e não dá confiança aos guarda-redes. Futebolista versátil e de extraordinária abrangência, alimenta as necessidades do parceiro goleador (João Tomás); conecta facilmente com os dois cúmplices da acção criativa (Jaime e Vandinho) e tem aproveitado ao máximo a fulgurante imposição de João Alves, o maestro silencioso que estabilizou o jogo bracarense e se transformou numa das maiores conquistas do futebol nacional em 2004/05.

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3. Na catedral de desconfiança em que Braga se tornou nos últimos anos, Jesualdo Ferreira é o mestre perto de conceber a obra-prima da carreira. Porque vê antes e alcança mais à frente do que outros construiu equipa que pressiona sem perder posição e estabelece cadeia de desenvolvimento do jogo cada vez mais participada; que se agrupa automaticamente sem a bola e possui mecanismos de transformação ofensiva quando a conquista. Foi o tacto para avaliar jogadores que lhe permitiu formar a mais consistente dupla de centrais do campeonato (Nem e Nunes); colocar Jorge Luiz e Abel entre os melhores laterais da SuperLiga; saber esperar por Luís Loureiro e fazer de Paulo Santos o substituto certo de Quim. Tirar o máximo partido do artista que desequilibra à frente foi apenas a cereja em cima do bolo.

4. Wender apresenta o perfil de bom malandro e os traços de uma inteligência prática adaptada às dificuldades – armas de fabrico caseiro e uso pessoal com as quais estabelece a relação com o jogo. Pelo caminho aperfeiçoou a concepção da picardia com segundas intenções; das quedas com origem duvidosa; dos protestos constantes que desviam atenções. Mesmo quando parecem crimes graves, são pequenos delitos que fazem parte do dia a dia e não chegam sequer para ferir os espíritos mais sensíveis. Agora que atingiu o topo da tabela, Wender encarnou o papel de Robin dos Bosques da SuperLiga, o justiceiro que tira aos grandes e poderosos para dar aos pequenos e desprotegidos. Enquanto assim for, é o campeonato que fica mais rico. E é o novo líder que começa a ganhar pontos no coração dos adeptos neutros.

Flanco direito

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O futebol no estado mais puro. Chegou e agiu como se estivesse em casa; disseram-lhe que ia jogar e esfregou as mãos de alegria; puseram-lhe a batuta na mão e dirigiu com brilhantismo uma orquestra desconhecida. No fim, Nuno Assis marcou um golo, foi o melhor em campo e confirmou a ideia segundo a qual o Benfica precisava de um jogador como ele. Mais simples, de facto, não podia ter sido.

Um grande projecto de jogador. Agora que os brasileiros voltam a estar na moda, o nome e a pinta confundiram-no com um deles. Chama-se Targino, é português, tem 18 anos e representa um grande projecto para o futebol nacional. É elegante a correr e a conduzir a bola; possui intuição e objectividade a ir para o golo; por ser corajoso e tecnicista não tem medo de falhar. Perdê-lo de vista pode ser uma inconsciência.

De volta ao papel mais adequado. A maior figura do primeiro terço da SuperLiga nunca perdeu estatuto: Jorginho foi protagonista porque jogou como ninguém e continuou a sê-lo no centro de uma operação de mercado que não deu certo. A iminência do negócio diminuiu-o como futebolista, até ao momento em que decidiu ficar em Setúbal. Reassumiu então o papel mais adequado à sua natureza de predestinado e, em Alvalade, foi isso mesmo que mostrou: um craque da cabeça aos pés, inspirado, goleador e comprometido com a causa sadina.

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O Barcelona e Demetrio Albertini

Nesta altura em que a perspectiva de negócio (comprar bem, valorizar e vender melhor) é tão importante quanto o reforço efectivo das equipas, o Barcelona cometeu um disparate lamentável à luz das novas tendências: contratou Albertini (33 anos) à Atalanta. Se precisava de um médio-centro experiente, com sentido de orientação, voz de comando, técnica e disponibilidade, Rijkaard fez o que lhe competia. Talento e competência nada têm a ver com a idade. Meu caro Frank, estou contigo: há novos que nunca serão bons e velhos que jamais nos desiludirão.

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