O brilho intenso de uma estrela

1. Tem a paixão pela bola que distingue os grandes artistas, o orgulho dos craques de verdade e o amor-próprio que o torna ambicioso e comprometido com a causa que defende. É um jogador total, com vasta abrangência no terreno e influência esmagadora na equipa; que desempenha todas as funções da acção criativa e revela solidariedade no trabalho defensivo; que à frente possui técnica para alimentar a visão de médio e mais atrás actua em conformidade com o veneno de avançado íntimo do golo. Mesmo que pretenda resguardar-se nas zonas neutras do palco, Jorginho já não consegue escapar aos holofotes que o acompanham permanentemente: por ser o sinal que antecipa o êxito da peça e ao mesmo tempo a garantia máxima de que o espectáculo pode começar a qualquer momento.

2. Porque é rápido, joga de cabeça levantada e executa com precisão, a curta e média distância, está apto a tirar partido das faixas laterais; porque é inteligente a movimentar-se, remata com os dois pés e possui bom jogo de cabeça, é um perigo nas imediações da baliza; porque tem sentido de orientação apurado e solução para todos os problemas, quando embala de trás o adversário decreta, imediatamente, o estado de alerta máximo. Jorginho impõe-se por ser hábil a conduzir a bola e genial a sair do drible; pela velocidade de pernas e principalmente de raciocínio; por ser dotado para o jogo associado e para as iniciativas individuais; por ser eléctrico a explodir na aproximação à zona da verdade e sereno no instante de decidir.

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3. Em plena estrada, acompanha com agilidade felina os reflexos apurados pelo instinto; como tem o dom de adivinhar, resolve cada situação com a sumptuosidade de quem se transcende com o jogo e nunca se entusiasmou com o cronómetro. O resto é a coragem para receber a bola e o talento para a tratar bem; o físico para resistir aos choques e a fantasia para dar seguimento às acções; a surpresa pelo primeiro gesto brusco e a capacidade para aumentar o perigo logo a seguir, com nova finta ou passe a rasgar. Salvaguardadas as proporções, Jorginho sugere o poder de síntese de Deco (referência que alimenta o colectivo); o perfil goleador de Kaká (mais letal pela dinâmica do que pela presença na área) e a habilidade natural, expressa por toda a frente de ataque, de Ronaldinho Gaúcho.

4. Se Benfica e Luz são palavras maiores do imaginário futebolístico internacional, o Vitória Futebol Clube responde com o prestígio de um nome, a força de uma bandeira e o peso da História que orgulha os setubalenses. Para o embate do próximo domingo no grande palco, José Couceiro leva ainda os galões correspondentes à espectacular liderança da SuperLiga, à equipa que melhor futebol pratica em Portugal e ao ataque mais concretizador da competição. Leva também Jorginho, a estrela com brilho mais intenso nas oito primeiras rondas do campeonato. Tirar coelhos da cartola não é para todos, mas fazê-lo durante dois meses seguidos é sinal de que o mágico sadino está próximo da perfeição. O que o torna ainda mais apetecível no mercado.

Flanco direito

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A conquista de Ricardo Nascimento. Para quem perdeu Jaime e Vandinho, ganhar Ricardo Nascimento não é conquista menor: foi uma descoberta de valor incalculável. A perspicácia de Carlos Brito permitiu ao Rio Ave manter a qualidade futebolística, sem abdicar do estilo e dos objectivos. O treinador tem agora outro desafio: ajudar o novo maestro a cumprir as promessas de talento que vêm de muito longe.

As lições do professor. Quando Rochemback trouxe a exuberância que abriu caminho à recuperação do Sporting 2004/05, já Custódio tinha cumprido parte do seu papel estabilizador, ainda no tempo do desvario, ao dar tranquilidade, segurança e equilíbrio ao colectivo. O seu talento não é visível à primeira vista, mas o tempo acentua a ideia de que passa hora e meia a dar lições de como se joga naquela posição. Se começa a marcar golos não há quem o segure.

Uma obra de mestres. Depois do fabuloso golo em Leiria (remate em jeito ao ângulo superior direito de Helton), André Barreto surpreendeu no Restelo com novo monumento (tiro sem preparação, a fuzilar Marco Aurélio). Mas se o golpe final foi a parte mais visível da obra de arte, não descuremos o trabalho que a antecedeu: o toque de João Pinto e o passe de Frechaut tiveram a chancela de dois mestres da bola.

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Várias formas de ser indigno

A urgência da vitória era tão grande, que Maniche e Hélder Postiga passaram à frente de questões menores como a ética, o respeito, o "fair play" e a decência. Em vez de darem a bola ao adversário, como era obrigação face às mais elementares regras do desportivismo, tentaram aproveitar a descompressão alheia para marcar golo. No fim, o árbitro acabou o jogo quando um francês caminhava isolado para a baliza, prova de que, neste mundo cão da bola, há várias formas de ser indigno. Muitas das quais cumprindo a lei - e estes são dois exemplos preocupantes.

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