No dia em que arranca mais uma edição da Liga, o futebol nacional volta a protagonizar nova demonstração da sua principal característica: confusão “à portuguesa”. Perante a indignação de uns, o espanto de outros e a indiferença dos poucos que não entendem, nem gostam, nada destas coisas da bola (temo que esta faixa tenha tendência a aumentar), o autêntico circo em que se tem transformado o desporto-rei lusitano prossegue a sua triste caminhada de desprestígio. Não me surpreendo. Afinal, a “palhaçada” sempre foi um dos pontos altos do espectáculo circense…
Pode parecer estranho, mas a verdade é que, a poucas horas da bola começar a rolar, ninguém consegue perceber se o Benfica vai defrontar o Belenenses, o Gil Vicente ou o Leixões na ronda inaugural. Melhor: poucos arriscam afirmar que os encarnados vão mesmo jogar domingo. Isto é elucidativo do estado caótico a que tudo chegou. E quando digo tudo não estou a pensar apenas na Liga e nos seus dirigentes (a palavra “responsáveis”, neste caso, não me parece poder ser utilizada como sinónimo), mas também na qualidade, formação e inteligência das pessoas que ocupam posições de destaque na Federação, nos vários órgãos com poder de decisão no futebol, nos muitos clubes que se dizem profissionais e nos juízes que, à boa maneira cá da terra, conseguem pronunciar-se sem que ninguém os entenda.
O Gil Vicente, depois de ter sido derrotado nas últimas votações sobre o célebre “caso Mateus”, resolveu avançar (de novo) para os tribunais civis, interpondo uma providência cautelar. Entendo a posição, mesmo sabendo os perigos a ela associados, em virtude das determinações internacionais. Se os gilistas continuam a pensar que têm razão, parece-me óbvio que defendam os seus interesses. Tal postura pode prejudicar o futebol português? Pois, consta que sim, mas isso, acho eu, não é o mais importante para quem tem como missão defender o seu clube. Aceito, sem discussão, que os minhotos tenham cometido vários deslizes em todo este processo, mas considero abusivo que se critique António Fiúza e seus pares por tentarem defender o Gil e não o futebol português. A menos que esteja enganado, tais pessoas foram eleitas pelos associados barcelenses para dirigir os destinos do clube. A defesa do futebol português tem de ser feita por outros, também eles eleitos para o efeito.
O Belenenses, como não poderia deixar de ser, falou no momento em que conheceu a decisão de permanecer no escalão principal e… saiu da ribalta. É uma estratégia igualmente lógica e correcta. Cabral Ferreira sempre se mostrou convicto da razão dos argumentos apresentados, ganhou a “batalha” e deixou a “batata quente” para outros. De momento, não compete aos azuis do Restelo andar de um lado para o outro a clamar justiça. Agora, esse papel é do Gil.
Correndo por fora estava o Leixões que, de repente, vem a público impugnar os dois principais campeonatos. Também entendo a ideia dos homens de Matosinhos: se quem desce no campo consegue manter-se, porque não pensar em subir mesmo tendo falhado os lugares que garantiam a ascensão? É uma posição dúbia, é certo, mas também susceptível de, pelo menos, ser discutida. Neste futebol português é tudo possível, discutível e… confuso.
Para além de considerar brilhante o facto do Benfica não poder preparar convenientemente o seu jogo de estreia na Liga, gostava de saber o que pensam aqueles que já compraram bilhete para determinada partida, correndo agora o risco de assistir a outra. É como comprar um bilhete de cinema para assistir ao “Voo 93” edeparar na sala com o “Rapaz Formiga”. A outra possibilidade, igualmente interessante, é encontrar a sala fechada.
Mais uma vez vou referir aquilo que me parece fulcral e carece de explicação nesta embrulhada:
- Se Mateus não podia ser utilizado pelo Gil na última época, porque razão a inscrição foi aceite pela Liga?
- Não tem a Liga, como organizadora de uma prova, de ser responsabilizada por um erro que, mesmo não tendo partido de si, acabou por patrocinar a partir do momento em que aceitou a inscrição do angolano?
- A confirmar-se a ilegalidade do Gil Vicente, e a verificar-se a consequente descida de divisão, não será necessário anular todos os resultados do clube e encontrar uma nova classificação?
- Independentemente dos regulamentos nacionais e internacionais, num Estado que se diz de direito, não existe o direito ao trabalho no caso do futebolista Mateus? Na Liga Profissional de Basquetebol, por exemplo, um jogador que começa a época como profissional não pode, a partir de Dezembro, actuar numa liga amadora ou semi-profissional (Proliga), mas o inverso é possível até ao arranque do “playoff”. Ou seja: passar de amador a profissional é algo normal e tranquilamente aceite no basquetebol. Porque não no futebol? O profissionalismo muda consoante a modalidade em causa?
- Num Estado que se diz de direito, como se justifica que pessoas ou entidades não tenham acesso aos tribunais civis? As leis da UEFA e da FIFA devem estar acima das leis dos mais diversos países?
- O Belenenses diz ter o direito desportivo de estar na Liga principal; o Leixões também. Mas, desportivamente, nenhum tem razão: os lisboetas ficaram em lugar de descida e os nortenhos falharam os postos de subida. Desportivamente, o único clube que tem razão em reclamar o seu lugar é o Gil. Resta saber se, fora do campo, o clube meteu mesmo a “pata na poça”…
Atentos, mesmo à distância, ao triste “show” que por aqui vai decorrendo, as instâncias internacionais também se posicionam, ameaçando – ainda que levemente – intervir de forma ríspida. É esse o seu papel, nomeadamente da FIFA que, como todos se recordam, ainda recentemente teve oportunidade de mostrar toda a sua classe durante o Mundial da Alemanha. Só gente bem formada, disciplinadora e defensora da ética, bons costumes e “fair play” teria sido capaz de abrir um inquérito ao italiano Materazzi depois deste ter sido agredido à cabeçada. Enfim, isso também já não interessa. Do Campeonato do Mundo só me recordo que o prémio de melhor jogador foi entregue a Zidane, esse exemplo a seguir por todos os bons cabeceadores do planeta.