O conversador que mete golos

1. São egoístas por natureza, frios por temperamento e obcecados pela glória do último toque; por serem ineficazes fora do seu habitat, tornaram-se mestres do espaço circunscrito à grande área adversária. Alguns sobreviveram sem mais preocupações do que manter a contabilidade em dia, reclamando atenção e afecto pela assinatura das obras personalizadas que são os golos. Os pontas-de-lança, tal como os concebemos até à década de 90, eram corpos estranhos ao funcionamento das equipas mas, ao mesmo tempo, os seus salvadores mais óbvios – Jardel é o último grande exemplo em Portugal como especialista do acto mais difícil do jogo, goleador que não perdia concentração e eficácia mesmo quando passava hora e meia longe da bola.

2. O tempo revelou-se fatal para essas figuras transformadas em expoentes da eficácia, reconhecidas com independência da nulidade a que baixavam por circunstâncias normalmente alheias ao seu talento peculiar. De outra estirpe é Nuno Gomes, um gerador de ideias que fortalece o futebol como espaço de solidariedade e imaginação; que torna homogéneas as diferenças daqueles com quem se relaciona; para quem a paixão pelo jogo supera a importância do golo. O avançado benfiquista é um jogador orgulhoso do que faz e comprometido com o clube que representa; apto a participar com explosões de clarividência no bordado que alimenta o ataque (normalmente a um/dois toques) para depois se desdobrar em aparições luminosas na zona de finalização.

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3. Por formação repudia violências marginais e grosserias sem sentido. É daqueles que não precisaram de fome para ser atrevido, nem da miséria para atribuir ao futebol a importância devida na construção da felicidade. Condenado pelos impiedosos tribunais de intenções, que nascem nas bancadas e se estendem um pouco por todo o lado, Nuno Gomes tem reagido com nobreza, mas também com moral quebradiça, aos momentos mais delicados dessa tumultuosa relação. Caracterizado como brilhante conversador que alimenta diálogos com parceiros de ataque, não aprecia a solidão e sente-se diminuído quando o deixam a falar sozinho em território inimigo. Intérprete de uma tarefa individualista por definição (o golo tem nome), o seu jogo está cheio de soluções colectivas, cada vez mais sólidas e variadas.

4. Quando resvalava para o abismo da incompreensão, a sua resposta foi fantástica. Bastou-lhe a chegada de um companheiro que fala a mesma linguagem (Miccoli) para despejar o saco de argumentos que muitos já tinham esquecido. Reassumiu então o peso na equipa, voltou aos golos e até regressou à Selecção, de onde tinha sido afastado com deselegância e trejeitos mal-educados. Analisar seja quem for apenas em função do imediato é uma indignidade comum – meu caro Ronald Koeman, acredite que em Portugal o oportunismo está disseminado por toda a sociedade e não é exclusivo de uma classe profissional. A única forma legítima de avaliar Nuno Gomes é suportando convicções inabaláveis: um avançado vulgar que, de vez em quando, entra em estado de graça ou um jogador de eleição que se diminui ciclicamente por falta de confiança. Tudo o resto são faltas de respeito.

Flanco direito

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A DÚVIDA COMO PONTO DE PARTIDA. Manuel Machado lançou as sementes de um trabalho sobre o qual a última palavra pertencerá ao clube: caso esporádico ou início de um ciclo. O Nacional tem estrutura, organização e talento; está no grupo da frente, com 14 pontos, e sofreu apenas três golos, a despeito de já ter utilizado três guarda-redes. Todos acreditamos que a meta é a permanência, mas é preciso desconfiar de que existe qualidade para mais.

MAIS UM CARTÃO DE VISITA. Na Luz, Targino distribuiu mais um cartão de visita, apresentando-se como jovem de grande futuro, atacante com mobilidade, técnica, rapidez e sentido de baliza – pena ter saído mais cedo, vítima da entrada brutal de Petit. Foi a grande figura de uma equipa que, apesar de ter perdido, saiu do relvado aplaudida pelos seus adeptos, reconhecidos pela boa exibição. Prova de que as derrotas não são todas iguais.

O MELHOR DEFESA DO SPORTING. As crises costumam revelar jogadores que se impõem por maturidade e liderança. Tonel tem sido o melhor e mais regular defesa do Sporting 2005/06. Entre erros clamorosos sucessivos (Polga), infelicidade com valor golo (Beto), desvario por agressividade (Miguel Garcia), inconsistência (Paíto) e lesão (Rogério e Tello), em Paços de Ferreira prevaleceu a serenidade de quem mais depressa podia assustar-se com o fantasmagórico cenário. São muitos pontos a favor de um homem só.

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Esse pontinho com o Liechtenstein

A palavra espectáculo associada ao futebol é uma subversão que recupera o antagonismo, nem sempre verdadeiro, entre beleza e eficácia, ingenuidade e esperteza, risco e bom senso. Quando Co Adriaanse reclama uma equipa que respeite os adeptos, inclui na proposta a intenção de ganhar; já Scolari diz que lhe basta um pontinho para celebrar a presença no Mundial. Sendo assim, ficará feliz se repetir o empate com o Liechtenstein, porque a vergonha, desta vez, chega para atingir o objectivo. É uma opção. Só não contem comigo para essa festa.

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