O dom de Atsu e Kelvin

O dom de Atsu e Kelvin

1São jogadores irreverentes com os fundamentos coletivos do futebol mas têm as soluções individuais que os transformam em espetáculo de primeira grandeza. Ambos assentam no perfil exibicionista comum aos excêntricos habilidosos e geniais, que podem ser irresponsáveis num entendimento mais restrito do jogo mas servem para encantar plateias, ganhar jogos e ser heróis das comunidades em que estão inseridos. Atsu, 20 anos, que não foi esmagador no Rio Ave e ainda não está confirmado no plantel portista da próxima época, parece ter o Tottenham disposto a pagar 10 milhões pelo seu passe; Kelvin, 19 anos, que vive a mesma indefinição quanto ao futuro, afirma ter um pé esquerdo abençoado por Deus – não lhe ficará bem dizê-lo mas, pelo que já mostrou, existe nele uma dimensão só explicável com argumentos sobrenaturais.

2 Há muito que a geometria traz o instinto pela trela – pode mesmo dizer-se que açaimou a imaginação e o talento, diminuindo o amplo horizonte de soluções proporcionado pelos artistas que existem para nos reconciliar com o futebol. O tempo dimensionou o drama de jogadores que quanto mais felizes chegam ao fim dos jogos mais repreensões ouvem dos seus treinadores. É essa discrepância torturante que os mestres têm de anular, assumindo o papel que lhes cabe: ensinar aos espíritos mais livres e rebeldes os benefícios de diluir o protagonismo na equipa. Não se trata de domar puros-sangues e torná-los funcionários como outros mas de enquadrá-los num todo, comprometê-los com a causa comum e fazê-los entender que, neste desporto, há tarefas só concretizáveis se forem resolvidas em conjunto.

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3 Atsu e Kelvin são futebolistas de inserção difícil, até numa equipa como o FC Porto, na qual a ordem funciona como princípio da criatividade e amparo para as mais insólitas tentativas de cada um. Vítor Pereira, que ainda tem Iturbe a reclamar oportunidades (e o argentino, já se percebeu, ambiciona voar alto), tem de tomar decisões orientado pelas suas convicções mas também por outras contingências, incluindo aquelas que forem ditadas pelo mercado. A este nível tão elevado de exigência, é difícil encontrar espaço para tantos magos da bola, mesmo reconhecendo ao treinador competência para transformar essa expressão avulsa numa bênção comunitária. Estrelas como os jovens portistas só serão fenómenos quando (se) aprenderem a interagir com os companheiros e a decifrar as matrizes coletivas do jogo.

4 Acreditar em grandes talentos sem estatuto é um ato de coragem que compromete o líder com o objeto da sua confiança. Jogadores como Atsu e Kelvin, enquanto não consolidam todas as competências, constituem apostas de risco, porque a dúvida fará sempre parte da equação: acrescentam magia à fábrica, como peças soltas da engrenagem; ou danificam a organização e a disciplina com a leveza de truques fora do guião, capazes de adulterar o bom funcionamento da máquina? O êxito destas relações depende muito dos conhecimentos, da paciência e do bom senso de quem dá os conselhos (o treinador). Mas depende, mais ainda, da inteligência de quem os recebe (o jogador). É por isso que nem todas as histórias têm final feliz.

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