1 Se as equipas de futebol são comunidades dependentes dos efeitos, bons e maus, da vida quotidiana; se um dos segredos para ser feliz em colectivos heterogéneos é saber lidar com o direito à diferença, aproveitando o contacto diário para fortalecer a cadeia de solidariedade e cumplicidades; se as divergências de opinião e comportamento não excederem a rebeldia saudável em meios afectados por factores repressivos como ordem e disciplina, então os potenciais focos de turbulência ficam reduzidos a simples desavenças no modo de encarar uma realidade comum – isto é, são tensões benévolas que nascem, vivem e morrem no interior do grupo. Uma equipa suportada em convicções fortes, concreta nos objectivos e nas regras básicas do funcionamento, está blindada aos ataques exteriores. Mas nenhuma resiste à incorporação de quem desvalorize princípios sagrados como o amor próprio, a dignidade profissional e o respeito pela instituição que representa.
2 Há muito que Jardel fala, pensa e age com a presunção de que está imune a erros e grosserias, indiferente às obrigações de figura pública e às mais elementares regras de bom senso; há muito que se perdeu em labirintos de excessos, entregue às emoções de uma roleta russa inconciliável com a noção de família, tranquilidade e bem-estar; há muito que põe à prova os seus limites, enquanto elabora sucessivos testes à paciência do Sporting e desafia diariamente o afecto de companheiros e adeptos. Nesta viagem de perdição, que nem sempre tem bilhete de volta, Jardel está a perder, gradual e perigosamente, os elos que o ligam ao Mundo – e por negligência aceitou o papel de protagonista de um filme indigno do seu prestígio. Nesta sociedade que promove a informação como grandioso espectáculo, o artista não saiu de cena, apenas mudou de lugar: era o maior fenómeno individual da SuperLiga, transformou-se no fio condutor que aproxima o futebol da tragédia, do escândalo, da intriga e da anedota.
3 Jardel é, nos dias que correm, a nostalgia dos 42 golos, a revolta pelas sucessivas desconsiderações para com o clube e uma enorme dúvida prestes a ser esclarecida – voltará a ser o mesmo? Hoje está muito mais perto de ser o rosto de uma história cor-de-rosa (ou negra?) de consumo rápido, do que a estrela doente a caminho da recuperação; é muito mais a imagem de um produto mórbido e apetecível, com influência nas audiências, que o ídolo capaz de fazer explodir os estádios deste País. Quando o conflito estalou, no Verão passado, eram visíveis traços dissimulados de uma agitação doentia, em pano de fundo desenhado com suspeitas de engano e manobras de diversão; meses passados evoluiu para a frivolidade habitual: encara o Mundo com leveza de menino e sente-se vítima de conspiração à escala planetária. Se antes nunca desfez convictamente a ideia de querer enganar os outros, agora apresenta os perigosos sintomas de estar a enganar-se a si próprio.
4 Durante cinco meses, Jardel teve uma agenda cheia, ditada pelo Mundial perdido, pelo divórcio inevitável, pela grandiosa transferência nunca concretizada, enfim, por um novo estilo de vida orientado segundo a quebra de compromissos com o passado. Quando, em finais de Setembro, aceitou o sacrifício e, a pedido de várias famílias, voltou a jogar, deu apenas um sinal de que mantinha uma ponte com o futuro. Serviu-se então do crédito imenso conquistado em Alvalade, mas foi tão inábil que o esgotou em pouco tempo. Neste processo, cujo final não se vislumbra, embora se adivinhe, o clube foi tolerante em nome de um título; intransigente na defesa de direitos legítimos em hipotética transferência; confiante de que estava perante a solução para inverter o início de época desastroso – e chega aos dias de hoje assumindo o papel paternal de chefe de família zeloso. Adaptando o que Jorge Valdano escreveu um dia sobre Maradona, tudo valerá a pena para o recuperar: Jardel só precisa de entender que joga futebol como um Deus mas é apenas um homem.