O génio terá a última palavra

O génio terá a última palavra

Aos 50 anos, José Mourinho é um treinador com passado e futuro, mesmo que muitos se julguem no direito de o avaliar só em função do último resultado. Viver com ele não é fácil. Lidar com o seu fantasma será muito pior...

1 - Quando José Mourinho assinou pelo Real Madrid, em 2010, parecia que tinham nascido um para o outro – o melhor treinador do Mundo ao leme do clube mais ganhador da história do futebol. Sabemos hoje que o cenário idílico de um casamento para a vida começou a deteriorar-se pelo estilo de um líder sob acusação de se julgar acima da potência que representa. Mas prosseguiu também nos hábitos conservadores de um clube que atingiu o estatuto de potência máxima enquadrado por homens gentis, discretos, resignados e pouco ruidosos. Vicente del Bosque, Juande Ramos, Schuster e Manuel Pellegrini são exemplos recentes de quem não ofusca os solistas da orquestra. De um modo geral, porém, o madridismo não tem sido hostil aos efeitos do maestro mediático, profético e protagonista de primeira grandeza.

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2 - Costuma dizer-se que o futebol gera dois exageros que servem para unir quem vive do mesmo lado da barricada: o sofrimento e a felicidade. Mourinho sentiu, pela primeira vez na carreira, um desfasamento no próprio grupo que comanda – alturas houve em que o sofrimento de uns (pelas más exibições, pelas derrotas...) foi a felicidade de outros (para legitimar a fragilização e até a saída do treinador no fim da época). Ao primeiro sinal de fraqueza viu-se entre inimigos: jornalistas, adversários, árbitros, parte dos adeptos e, como já se disse, alguns dos seus próprios jogadores. A franqueza fê-lo recusar a hipocrisia; o orgulho levou-o a não perdoar; a integridade, como treinador mas também como homem, não lhe permitiu emitir sinais mentirosos de indiferença face ao ataque organizado de que foi alvo.

3 - Como está num plano superior, perdeu medo aos inimigos naturais dos treinadores comuns – e a insolência acabará por deixar marcas naqueles que tiveram a veleidade de pensar que seriam os seus carrascos. Muitos desses indecorosos candidatos a justiceiros misturam sentimentos com o dever de imparcialidade; deixam que o ódio supere a inteligência e que as emoções lhes danifiquem o bom senso. Têm à frente dos olhos um dos maiores génios da história do futebol, mas o preconceito e a ignorância só lhes permite ver o arrogante, o caprichoso e o provocador. Aos 50 anos, Mourinho é um treinador com passado e futuro, mesmo que muitos se julguem no direito de o avaliar só em função do último resultado. Viver com ele não é fácil. Lidar com o seu fantasma será muito pior.

4 - Por temperamento e também pelo cenário que o envolveu a partir do momento em que o rival acentuou um fosso na Liga, Mourinho não ficará para o madridismo como Cruyff para o Barcelona: não inaugurou uma escola; não lançou um projeto para as próximas décadas; não impôs uma ideia capaz de congregar a vontade de todo o clube. Para os vampiros do mérito alheio, os que entenderam uma fragilidade transitória como sinal definitivo de decadência, não deixará de ser perigoso que a última palavra no divórcio pertença ao génio que atacaram sem contemplações. Se em 3 anos em Madrid juntar a Champions e mais uma Taça do Rei ao currículo, quem vier atrás que feche a porta. Nenhum outro nos últimos 50 anos terá ganho tanto em tão pouco tempo.

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Debilidades sem CR7 e Nani

Há verdades no futebol que só se tornam visíveis e consensuais em situações extremas

Um breve exercício sobre jogadores portugueses dos últimos 20 anos conduz-nos à convicção de que a qualidade global diminuiu com o tempo. Na equipa de Figo, Rui Costa, João Pinto, Paulo Sousa, Fernando Couto, Vítor Baía e por aí fora, poucos da atual geração discutiriam a titularidade. Portugal jogará no Azerbaijão sem os dois expoentes máximos. É um perigo: uma Seleção Nacional sem Cristiano Ronaldo e Nani, com todo o respeito por quem os substituir e pelos outros que formam o onze, está à altura de Bélgica, Bósnia, Montenegro ou Noruega.

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Quando a estrela peca por omissão

Há futebolistas de quem se diz nunca jogarem mal. É só parte de uma questão mais ampla

João Moutinho pertence a essa estirpe que não comete erros graves, conhece todos os caminhos que percorre e as regras específicas de cada um deles. O problema é que esses jogadores determinantes nas equipas, mesmo sem falhas, podem ser um problema. Basta que revelem menos intensidade, tenham presença mais esporádica e, em vez de rebocarem a equipa, esperem que seja ela a ajudá-los a reencontrar influência, tempo, espaço, ritmo, velocidade... Frente a Israel, Moutinho não esteve mal. Mas também não esteve bem. E pecar por omissão, nestes casos, é pior do que jogar mal.

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Roberto Carlos dos pobrezinhos

A Liga portuguesa está cheia de jogadores suscetíveis de interessarem a equipas maiores

Jefferson é um dos bons laterais-esquerdos do campeonato, só claramente superado por Alex Sandro. O modo como pega na bola com o pé esquerdo torna-o temível nas bolas paradas e a forma como se insere nas ações ofensivas aumenta as soluções de aproximação à baliza. Falta-lhe calibrar a paixão pela aventura com a obrigação de serenidade e competência atrás; precisa, no fundo, de gerir melhor o ir e voltar. Talvez esteja sobrevalorizado pela exuberância com que se entrega à luta. Mas tem potencial para cumprir a promessa de vir a ser o Roberto Carlos dos pobrezinhos.

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