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O guarda-redes de uma época

1. Apresentou-se com o eterno perfil de rebelde e um passado pouco recomendável construído em agitação permanente; nele havia traços de um talento desperdiçado, daqueles que voam do miúdo promissor ao veterano que passou ao lado de uma grande carreira. Em Braga, Paulo Santos aceitou desafio de risco elevado, quase tão grande como o de Jesualdo Ferreira ao escolhê-lo para substituir Quim. Num meio conservador e desconfiado por natureza, foi recebido com frieza e alguns sinais de antipatia; respondeu com o ar descontraído comum a quem pretende ser apenas profissional de futebol, sem abdicar do estilo, das convicções e de um determinado ideal de vida. Naquele cenário desfavorável, no qual parecia condenado ao habitual destino de correr por fora, até o rabo-de-cavalo serviu para o denegrir e acentuar a dúvida.

2. Nove meses depois, no culminar de um processo evolutivo e seguro, Paulo Santos continua a dar respostas surpreendentes. Tornou-se o melhor guarda-redes de 2004/05 e chegou a este reconhecimento consensual expressando características diferentes das que normalmente lhe eram apontadas: não é a última esperança de uma equipa em dificuldades, na qual o protagonismo se consegue pelo volume excessivo de trabalho; não é o centro das atenções por manifestações exuberantes que resvalam para a extravagância nociva; moderou os tiques exibicionistas próprios de quem adora um bom voo e os aplausos da multidão, mesmo nos lances de perigo relativo que eles, guarda-redes carentes de afecto, transformam em imagens inesquecíveis ou em golos que o mero bom senso evitaria.

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3. Paulo Santos compreendeu em tempo útil que, neste Sp. Braga sóbrio, maduro, equilibrado e inteligente na sua expressão futebolística, não cabia uma referência "kamikaze" debaixo dos postes. Por medir com exactidão a realidade em que está inserido, submeteu-se à imperiosa reciclagem que o aproximou do guarda-redes certo para uma grande equipa. Estimulou a concentração, geriu os efeitos da inércia e impôs-se por serenidade e segurança, factores adormecidos desde a adolescência e com os quais se tornou um jogador de fiabilidade quase absoluta. Formado nas camadas jovens do Sporting, com passagens regulares pelas selecções nacionais no fim dos anos 80, recuperou a imagem de um guardião com escola, que domina os princípios básicos, as regras e a filosofia do lugar que ocupa.

4. A evidência de Paulo Santos não é circunstancial, produto daqueles relâmpagos comuns no futebol, capazes de transformar jogadores medíocres em protagonistas efémeros. É o resultado de uma afirmação gradual e sustentada; da redescoberta de qualidades perdidas no tempo e da adaptação de outras que começavam a constituir defeitos; da recuperação do orgulho danificado e do esforço para cumprir a sua parte na aproximação ao meio que o circunda. O Sp. Braga tem a melhor defesa da SuperLiga e não apenas por sofrer menos golos: tem os centrais que melhor funcionam entre si (Nem e Nunes); os laterais mais sólidos e espectaculares do campeonato (Abel e Jorge Luiz) e uma estrutura global que faz da causa defensiva uma questão de honra colectiva. Tudo assente no melhor guarda-redes da época.

Flanco direito

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A memória de Carlos Carneiro. A folha de serviços regista três momentos em que perdeu a memória em plena acção. Foi o que sucedeu, agora, em Vila do Conde. Esqueceu-se de quem era e, na dúvida, agiu como se fosse um dos melhores jogadores do Mundo. Receber a bola da esquerda e, a uma distância considerável da baliza, marcar um golo genial de calcanhar não é coisa de Carlos Carneiro. Nem mesmo de Madjer. Aquilo é de Maradona.

Merecia o golo mais do que ninguém. Quando marcou ao V. Guimarães, Paulo Sérgio não sabia onde guardar e o que fazer com tanta felicidade acumulada; de tal modo que perdeu mesmo a decência e iniciou um "striptease" – quando procurou a camisola perdida algures, foi o árbitro que lha deu, juntamente com o respectivo cartão amarelo. Mas o rapaz tinha bons motivos para exultar, porque ninguém mais do que ele merecia aquele golo. Aliás, é difícil perceber se foi a bela actuação azul que o inspirou ou se foi ele a rebocar a equipa.

Só ao alcance de mágicos. Em Aveiro, dois cruzamentos para trás da baliza, outros tantos remates disparatados e um arsenal de fintas inúteis levaram Quaresma ao fio da navalha, esse lugar perigoso onde vive há quase dois anos. Perante a necessidade exterior de arranjar explicação individual para o desaire, recusou o papel de vítima e preferiu entrar na história como herói, escolhendo a via artística de um golo só ao alcance de mágicos.

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Eu cá fazia-lhe uma estátua

Jaime Pacheco vive momentos desagradáveis ao serviço do Boavista, depois da derrota para a Taça e do empate com o Moreirense. Reconhecido pelo trabalho notável e aclamado pelo título de 2000/01, Pacheco guia-se por filosofia muito própria e respeita uma estética competitiva que não gera consenso. Agora que o limão, de tão espremido, já não deita qualquer gota, lá no Bessa acusam-no sabe-se lá de quê. Se eu mandasse fazia-lhe uma estátua ao lado da pantera. Orientado pela ideia segundo a qual se há sentimentos abomináveis a ingratidão é um deles.

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