O habitat natural de um predador

1. Na grande área, onde o espaço é diminuto e o tempo uma preciosidade cada vez mais rara, tem a arte de ajustar intuição, raciocínio e capacidade de tiro. Benni McCarthy é daqueles avançados que se agigantam à medida que a baliza fica mais perto e um mestre no modo como recebe a bola sob pressão em zonas de risco; naqueles terrenos militarizados, onde os defesas assumem o despudor da destruição a qualquer preço, descobre argumentos que o tornam mais hábil, mais preciso e mais rápido. A iminência do êxito recria o cenário que melhor serve o instinto felino de predador; a proximidade dos duelos individuais acrescenta eficácia ao jogo de processos lineares; o cheiro a golo altera-lhe o comportamento e aumenta o perigo a cada instante.

2. Por sentir que é inútil atrás e não dominar os segredos específicos da vida nas faixas laterais, vinga-se a fazer o que melhor sabe (golos), no espaço em que se sente mais à vontade (eixo central, nas imediações da baliza). McCarthy é um óptimo observador, que acumula informação com o tempo e antecipa quase tudo o que sucede à volta; sabe avaliar fragilidades alheias e está apto a tirar partido da mínima desatenção; habita onde tudo pode acontecer mas nunca é apanhado de surpresa. Quando dispõe de todos os dados necessários, puxa então do vastíssimo reportório goleador: excelência no jogo de cabeça (concentra físico, inteligência, coragem e técnica); remate fácil, poderoso e certeiro (a curta, média e longa distância), com bola parada ou em movimento.

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3. McCarthy faz depender a eficácia da distância que o separa dos companheiros. Apesar de ter evoluído muitíssimo no jogo combinado, impõe-se pelas acções de finalização a um só toque, em lances nos quais é breve, contundente e letal. Numa equipa que pressiona, cultiva a posse de bola e tem por hábito instalar-se no meio campo adversário, é o avançado perfeito - por isso vive em estado de graça durante quase toda a época. Quando chegam os jogos de coeficiente máximo de dificuldade, nos quais o FC Porto é obrigado a repartir a iniciativa e a optar por saídas mais rápidas e directas para o ataque, nem sempre está apto a corresponder às exigências. Num raio de acção mais amplo, revela debilidades bem escondidas no habitat natural: a bola não obedece à primeira; o jogo raramente sai melhorado dos seus pés; há requisitos de generosidade que não são cumpridos;

4. O erro não é drama e a desinspiração é mero dado transitório no caminho para a glória; a autoconfiança chega a ser escandalosa, razão pela qual nunca tem pressa, nem atribui carácter de urgência a qualquer intervenção. Depois de ter sido preterido na meia-final da Corunha - a opção pelo recuperado Derlei tem implícita mensagem que, a esta distância, também vale para a final de Gelsenkirchen -, McCarthy agiu à sua maneira frente ao Paços de Ferreira. Na festa dos campeões nacionais foi tão igual a si próprio que, sem egoísmos, cumpriu o objectivo de marcar os três golos de que necessitava para ultrapassar Adriano. Porque não gosta de velocidades, foi de bicicleta para o topo da lista dos melhores marcadores; porque nem todos os caminhos lhe servem, entrou pela via acrobática na História da SuperLiga 2003/04.

Passe curto

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Nem Roberto Carlos. Foi figura imensa numa SuperLiga em que o Nacional desempenhou papel de protagonista. Marcar dez golos a partir da esquerda da defesa não é para todos - nem Roberto Carlos faz tantos por época. Rossato foi o melhor de Record e é dos mais apetecidos jogadores do mercado nacional. Estavam à espera de quê?

O carrinho do árbitro. José Couceiro despediu-se amargurado mas muito mais rico. Já nada o surpreende, nem o carrinho do árbitro que trava Ronaldinho no anúncio da Nike. Ao longo da época viveu coisas parecidas. E nem todas para sorrir.

O adeus de Secretário. Secretário saiu em ombros do Dragão, prova de que as grandes referências no FC Porto são respeitadas até à hora da despedida - notável o modo como o clube transformou jogo oficial na homenagem a um histórico. Pode não parecer, mas há grandes vitórias que começam a construir-se nas pequenas lembranças.

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Há os bons e os maus. Por falar em históricos, Guimarães foi o último da época leonina: João Pinto fez golo a passe de Pedro Barbosa, enquanto Paulo Bento foi o melhor em campo. É só para insistir na tecla de que os jogadores não se dividem entre novos e velhos, mas entre bons e maus.

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