O incorrigível aventureiro

1. É um aventureiro incorrigível, que dá nome próprio às obras-primas que as bancadas glorificam mas cujo significado tem sido constantemente denegrido por quem define a estratégia. Vítima de acusações como inconsequente, infantil, egoísta, frívolo e intermitente; penalizado sob o pretexto de estimular uma espécie de recreio perpétuo inadequado às exigências competitivas, Ricardo Quaresma chegou a convencer-se de que a bola era uma paixão clandestina. Para atingir consensos só precisou que o ensinassem a moderar ímpetos em nome da eficácia e, ao contrário do que muitos pensaram, não foi necessário vestir-lhe a farda e transformá-lo num funcionário igual aos outros. Prova de que o futebol reconhece o direito à diferença e não eterniza dívidas de gratidão para com os seus artistas principais.

2. Apesar dos excessos, a força de uma ideia, o andaime da táctica e a definição das tarefas de cada elemento da equipa constituem factores de segurança na actividade de qualquer jogador. São a rede que diminui riscos aos trapezistas ou a partitura salvadora para quem sobe ao palco disposto a tocar de ouvido. Se o futebol tem algo de xadrez, a principal diferença é que no tabuleiro verde as peças têm vida própria e movimentam-se por livre iniciativa – para desespero de alguns treinadores, que vêem nos futebolistas (cada vez mais dóceis e subservientes) simples instrumentos das suas decisões. Neste cenário que atinge a repressão doentia, os Harry Potter do Mundo não têm vida fácil. Celebremos, pois, este momento raro em que impõem os seus dotes geniais e geram consenso alargado.

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3. Assim que pega na bola, Quaresma recupera as sensações que os espíritos rebeldes provocam nas mentes conservadoras – lança o pânico do imprevisto, na certeza de que transporta soluções para todos os problemas. É como se fosse um cavalo selvagem, livre, indomável, indiferente a discursos e desenhos que só servem para complicar o tão simples que é jogar futebol. Geram-se então os dilemas de fundo, que terminam em braço-de-ferro típico: tira harmonia à organização ou acrescenta soluções criativas à táctica? Promove quebras de solidariedade com a equipa ou gera condições para salvá-la com a magia das soluções individuais? Estraga porque não joga a um/dois toques ou resolve como visionário que assume, por delegação divina, várias missões a cumprir? Nesse pingue-pongue de conceitos, a vantagem não esteve sempre do mesmo lado.

4. A afirmação de Ricardo Quaresma ao mais alto nível constitui o grandioso triunfo sobre a recriminação sem pedagogia e é um duro golpe no preconceito de quem submete tudo e todos à ditadura de ideias não discutidas. Este reconhecimento unânime do seu talento é a demonstração inequívoca de que a diferença também pode exercer o efeito de lubrificação em máquinas enferrujadas pela rotina. Depois de ter sido vítima das areias movediças da incompreensão e de ter percorrido caminhos minados pelo despudor impaciente de quem não o soube avaliar, Quaresma não é só um resistente à tortura do banco e um sobrevivente marcado pelas armadilhas da mediocridade: é o vencedor da guerra psicológica que o manteve refém de incompetências alheias em muitos períodos da carreira.

Flanco direito

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O TERCEIRO GUARDA-REDES. Em pouco tempo, o Benfica perdeu Moreira e Quim; frente ao Sporting, o Nacional ficou sem Hilário e Belman. Enquanto na Luz a aposta em Rui Nereu foi recurso mal disfarçado de aposta convicta, na Madeira até parece que estavam à espera de oportunidade para lançar Diego Benaglio. O titular da selecção suíça de Sub-21 tem mostrado imenso talento, de tal modo que Hilário, quando voltou, foi para o banco.

A RACIONALIDADE EXTREMA. Num clube em dificuldades para cumprir obrigações mínimas com os seus profissionais, a equipa do V. Setúbal é a mais poupada da Liga: fez 17 pontos com meia dúzia de golos em 10 jornadas. Fábio personifica essa racionalidade levada ao extremo, ao apontar metade dos tentos da equipa, selando triunfos por 1-0 frente a Académica e Estrela da Amadora. Pelo andar da carruagem, vamos continuar a ouvir falar dele.

HAJA QUEM SE LEMBRE DELE. É como um parente com quem não é fácil estabelecer comunicação regular; partiu há muito tempo mas nem assim suscita o afecto que a distância estimula – e as notícias só chegam em imagens esporádicas. Por via dessa ligação ténue, sabemos só que está bem de saúde, consolidou-se como estrela do Fulham e granjeou prestígio em Inglaterra. Boa Morte é um esquerdino como Portugal não tem. É justo que Scolari o convoque. Haja quem se lembre dele.

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Di Stefano e Marco Aurélio

Farto dos constantes deslizes do seu guarda-redes, Di Stefano resolveu acentuar-lhe o nervosismo com uma frase surpreendente: “Se entrarem as que vão à baliza, não te preocupes. Faz-me só um favor: não metas dentro as que vão para fora.” Aumentando o exagero de D. Alfredo, associemos as suas palavras ao lance incrível do golo boavisteiro no Restelo, sofrido por Marco Aurélio – a bola não ia para fora, mas quase. A questão é que, mesmo depois do erro clamoroso, D. Marco permanece como um dos melhores guarda-redes da Liga. E isso faz toda a diferença.

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