O futebol é mais simples do que se faz crer e, por mais vontade de complexificar as suas funções que os treinadores revelem, no essencial, compete-lhes um conjunto de tarefas lineares – contudo, exigentes. Manter a equipa organizada, desenvolver princípios de jogo e incentivar animicamente os jogadores, potenciando as suas qualidades. Se estes são os atributos positivos que se esperam de um treinador, há um defeito que surge com frequência e que pode deitar tudo a perder: inventar, quando as soluções óbvias tendem a ser, também, as mais eficazes.
Jorge Jesus é um treinador com qualidades evidentes, mas revela também uma tendência inexplicável para inventar, dando, com isso, cabo de tudo o que constrói. Como se não bastasse, é incapaz de aprender com os seus próprios erros.
Depois de ter insistido há três anos em Roberto bem para além do aconselhável e de ter, há duas temporadas, vislumbrado qualidades em Emerson que mais ninguém via, este ano voltou a inventar: desta feita descortinando num jogador medíocre – Cortez – capacidade para jogar no Benfica. O problema não é a má opção inicial, mas sim a insistência no erro. Em agosto já era visível que Cortez não podia jogar no Benfica; que, em dezembro, tendo alternativas, Jesus tenha voltado a apostar no brasileiro é inexplicável.
O preocupante é que a teimosia de Jesus não visa tornar a equipa melhor ou proteger o jogador. A sensação que dá é que o objetivo do treinador é provar ao mundo que, afinal, ele tinha razão. A este propósito foi sintomático que depois de o Benfica ter perdido com o Olympiacos com uma série de defesas de Roberto (que dias antes tinha oferecido um golo em Lisboa), Jesus tenha elogiado o espanhol – quando Roberto não passa de um guarda-redes medíocre, com falhas técnicas evidentes, que de quando em quando engata um jogo.
Naturalmente que o Benfica não empatou com o Arouca por culpa de Cortez. Bastava um pouco de sorte para o resultado ter sido diferente, mas não ajudou nada que, uma vez mais, Jesus tenha inventado, quando teria sido preferível tomar opções guiado pelo bom senso.