O médio roubado às linhas

O médio roubado às linhas

Depois de ter sido rei e senhor na luta com Fernando, Lucho e Moutinho, Enzo Pérez prepara-se agora para testar a dimensão atingida nas novas funções em confronto com estrelas mundiais como Lampard, Ramires e Oscar.

1 Numa sociedade de aparência e superficialidade, o futebol acompanha os novos tempos. A televisão contribuiu em muito para dimensionar o jogo à condição de espetáculo de primeira necessidade, que publicita o fenómeno com benefícios económico-financeiros evidentes para clubes e jogadores, ao mesmo tempo que aproxima os adeptos dos ídolos, mesmo que promova a distância física entre eles.

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Uma das consequências mais relevantes dessa implacável lei do mediatismo é a perpetuação de artistas que decidem jogos medíocres com um toque de génio. Os prejudicados são aqueles que as câmaras ignoram, os de presença constante que se tornam invisíveis para quem só procura a excelência instantânea; aqueles que, indiferentes à ditadura da imagem, acabam vítimas da sua própria discrição.

2 Enzo Pérez precisou de aproximar-se da perfeição para se fazer notar. O médio-centro inventado por Jorge Jesus não alimenta a visão mentirosa da realidade que eterniza a associação à história por via de um segundo de inspiração em 90 minutos; antes consegue fazê-lo à custa de hora e meia a tomar decisões rápidas e acertadas para o equilíbrio e a segurança da equipa: se ocupa o espaço ou cai em cima da bola; se temporiza ou ataca o adversário; se alimenta a circulação ou conduz ele próprio a bola.

Dono de visão e sentido estratégico apurados, interfere em todo o jogo a partir dos terrenos que domina. A articulação com Matic é sublime. Jogam de olhos fechados. De resto, muitos dos méritos atribuídos ao sérvio na sua época de afirmação no contexto mundial são da inteira responsabilidade do argentino.

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3 Jogador silencioso, que rejeita o sorriso, não teme o conflito e amiúde promove a picardia, Enzo não gosta do futebol vendido para fora (entrevistas, marketing, publicidade...) mas sim de vivê-lo na plenitude do que o enaltece por dentro (orgulho, camisola, bola, treino, jogo...). Todo o seu comportamento recusa decisões que fragilizam o balneário; abalam os alicerces da equipa como família; danificam o orgulho de ser profissional; retiram força ao sentido de representação.

Quanto à vertente estritamente técnica e tática, a conclusão é simples: como ala seria apenas razoável; como centro-campista é um portento de trabalho, ordem, disciplina, solidariedade, obediência, talento, aventura e irreverência. É um médio de nível internacional.

4 Enzo não é um extremo a desempenhar funções de coordenação geral com armas de quem cresceu junto às linhas; é um jogador da cabeça aos pés que adaptou estilo, competências e intervenção às necessidades da vida no centro do terreno, onde contribui para dar segurança atrás e clarificar a chegada à frente. É raro ver alguém conciliar o perfil de funcionário e patrão; bombeiro e arquiteto; polícia e ladrão; violinista e tocador de bombo.

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O seu futebol linear não aceita o adorno mas está repleto de elementos como eficácia, inteligência e soluções táticas. Depois de ter sido coroado rei e senhor no despique do Dragão frente a Fernando, Lucho e João Moutinho, Enzo Pérez prepara-se agora para testar a dimensão atingida nas novas funções em confronto com estrelas mundiais como Lampard, Ramires e Oscar.

Defesa-central de nível europeu

Mangala é um defesa espetacular e eficaz, que apesar da exuberância em todas as intervenções nunca se desvia do objetivo. Faz tudo no limite de velocidade, intensidade e paixão mas nunca perde a noção exata de como agir perante cada situação. Ganha porque antecipa os movimentos dos adversários mas também, caso não cumpra a primeira etapa, por ser mais rápido e mais forte na recuperação do espaço e do tempo que concedeu. Vítor Pereira lapidou o diamante. O francês tem todas as condições para se tornar um central de referência a nível europeu.

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André Almeida será o melhor?

No caso de André Almeida, porém, a situação configura um entendimento diferente, na medida em que só a polivalência lhe valeu presença mais ou menos assídua na equipa. O problema é que, depois dos jogos efetuados com Fenerbahçe e FC Porto, o jovem português suscitou dúvidas inesperadas. Agora que a época está no fim, não deixa de ser preocupante (e revelador da qualidade do plantel) admitir que é ele o melhor lateral-esquerdo do Benfica – ele, um médio-centro que também pode ser defesa-direito e que, analisando a função de uma determinada forma, supera Melgarejo e Luisinho.

Pedro Proença tornou tudo fácil

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Pedro Proença fez reverter a seu favor o prestígio que lhe confere o estatuto de melhor árbitro do Mundo na atualidade e melhor da história do futebol português. Resistiu ao ímpeto de desfilar em vez de arbitrar e tornou simples um jogo de dificuldade máxima. Apontado como problema para o clássico, confirmou ser a solução lógica para momento tão delicado. E, não obstante a excelência exibida na condução do jogo, correu riscos de sair crucificado do Dragão, vítima do assistente Tiago Trigo, que não viu fora-de-jogo escandaloso de James, em lance que o colombiano atirou ao poste.

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