1 É um tremor de terra contínuo, acompanhado pelo manual de boas maneiras (evita as grosserias) e pelo dicionário, ainda incompleto, das habilidades com a bola nos pés – acções nas quais o recreio tem peso insignificante. Atrás das labaredas que provoca, Nélson acende uma luz de ternura que nos reconcilia com o futebol e devolve ao estado mais puro um jogo pouco habituado a magias com origem em zonas tão recuadas; as iniciativas que promove têm a fragrância dos predestinados e o ímpeto visionário de quem aborda os adversários como se fossem meras sombras. As lufadas de pânico para quem o pretende travar são vendavais de felicidade que refrescam as bancadas, onde habitam, afinal, os seus admiradores mais dedicados: os adeptos que já o declararam herói da comunidade.
2 Nélson é hábil a sair de apertos em espaços reduzidos e dono de uma explosão demolidora; é electrizante com a bola e sereno a tomar decisões; requintado a resolver problemas e um sublime tecnicista no modo como alimenta a visão ampla do que se passa à volta. O cruzamento é a ferramenta mais preciosa e, por ser ambidestro, tem soluções para todas os gostos. Pode seguir em linha recta e centrar com o pé direito, levando a bola a fugir ao guarda-redes, ou travar, inverter a marcha e executar com o pé esquerdo, fazendo com que a bola se aproxime da baliza – trajecto no qual um simples toque é suficiente para lançar o caos. A perfeição do que faz é tão grande que o êxito do passe não depende da distância a que se encontra da linha de fundo.
3 Para atingir o nível de grande figura à escala europeia numa posição cada vez mais carente de referências, Nélson precisa apenas de moderar o que já tem de sobra (ímpeto criativo) e consolidar elos que estão implícitos à função que desempenha (orientar-se pela segurança máxima de uma âncora defensiva que não suscite equívocos). É imperioso que valorize a articulação sectorial como um bem de primeira necessidade; que saiba exactamente onde colocar-se quando está longe da bola e definir o espaço a ocupar de acordo com as movimentações dos centrais; que tenha capacidade para medir distâncias, adivinhar intenções e aperfeiçoar o posicionamento nos lances aéreos, aqueles que lhe causam mais dificuldades. Nada que o deva preocupar em excesso.
4 Por detrás do ar infantil de menino feliz, enquadrado pelo sorriso invencível de quem não se deslumbra com êxitos fulminantes, habita um futebolista de corpo inteiro; um miúdo que percorreu à velocidade do som as primeiras etapas da carreira e continua a interpretar com maturidade surpreendente a glória precoce dos passos iniciais no Benfica. Porque não deu por concluído o processo de aprendizagem e já intuiu que a afirmação definitiva num grande clube não se esgota no primeiro fogo-de-artifício; porque dispõe de argumentos técnicos extraordinários, dimensionados por qualidades físicas impressionantes (velocidade, dinâmica e resistência), Nélson tem um destino inexorável a cumprir. E, neste momento, já não é só o crepúsculo de um excepcional jogador mas o nome que preenche a convicção de estarmos perante uma grande descoberta do futebol português.
Expressão mundial
A idade de ambos, em conjunto (36+36), atinge os 72 anos e, naquilo em que são mestres, protagonizaram um enorme duelo em S. Siro: Mihaijlovic marcou um livre directo, Vítor Baía executou uma defesa assombrosa. Ganhou o mais medalhado jogador da história do futebol que, num jogo interdito a menores, confirmou a verdade com década e meia: é o único guarda-redes português de expressão mundial.
Um bom início de conversa
O problema do Sp. Braga não é a qualidade da equipa; é não exercer sobre os adversários e, sejamos honestos, sobre o mundo que o rodeia, o efeito de uma autoridade esmagadora que faça os outros tremer só de pensar que vem lá o líder. João Tomás trouxe golo, mais soluções ofensivas e eficácia na finalização. É um bom início de conversa. Mas talvez não chegue para assumir em pleno aquilo que se pretende.
A cavalgada alucinante
O que mais impressionou em Nani frente ao Boavista foi o golo inesquecível; mas o que melhor o define como jogador foi o atrevimento e a autoconfiança que lhe permitiram imaginar o lance e acreditar que podia concluí-lo – com êxito ou não. Quem pega na bola atrás da linha de meio campo e se lança naquela cavalgada alucinante não é um jogador qualquer. O facto de ter consumado o acto não significa, para já, que seja um grande jogador. Só não podemos é perdê-lo de vista.
Uma cedência inconcebível
Apresentou-se com a ideia inegociável de que o futebol é um espectáculo associado à criatividade, ao prazer do jogo e ao orgulho inerente à força representativa dos clubes nos meios em que estão inseridos. Foi uma lufada de ar fresco. Agarrado a esses princípios venceu e deslumbrou; orientado por eles perdeu e resistiu. Em S. Siro, talvez contagiado pelo cenário desolador das bancadas vazias, substituiu a grandeza das convicções pelo pragmatismo que não se cansa de criticar. Resultado: perdeu o jogo e quebrou o fio condutor do seu trabalho. Que desilusão.