O novo palco de um maestro

1. Não é um jogador de fácil inserção, porque pertence à classe dos que defendem a identidade com orgulho inegociável; mesmo sendo generoso no cumprimento do esforço, nunca será totalmente feliz se a sua contribuição artística for reduzida a participações avulsas. Formado num futebol de constantes apoios ao transportador da bola, de zonas de progressão central menos congestionadas e sistemas defensivos mais liberais, Diego chegou a Portugal com o rótulo de um dos maiores talentos do Brasil. Viveu as tormentas do início de época portista, resistiu à dúvida exterior e cumpriu o período de adaptação à realidade desconhecida. Começa agora a desvendar por que razão, na perspectiva de um futuro que pode começar já em 2006, é colocado ao nível de Ronaldinho, Kaká, Adriano e Robinho.

2. Não se perde nos caminhos povoados do centro do terreno, nem teme pela vida nesses territórios de risco onde tudo pode acontecer; tem habilidade para receber a bola sob pressão e força para a conservar, argumentos aos quais acrescenta o arranque potente e a técnica sublime com que dá continuidade ao que inicia. A riqueza de soluções individuais chega a ser escandalosa: é um excelente condutor, dotado para as combinações curtas que vai multiplicando pelo campo fora; tem drible, visão e passe, armas que lhe permitem inventar espaços onde mais dói ao adversário; sendo um jogador imprevisível, de quem se esperam desequilíbrios milagrosos, sabe posicionar-se, está sempre disposto a receber a bola e cumpre os requisitos mínimos da solidariedade no trabalho mais sujo.

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3. Nado e criado segundo conceitos estéticos apertados, que valorizam o toque e o adorno como forma de envolvimento colectivo, Diego está cada vez mais apto a lidar com a densidade de marcação no eixo central. Apesar da magia instantânea do reportório – basta recordar algumas pinceladas geniais frente a V. Guimarães e Belenenses –, só atingirá a expressão máxima como futebolista quando se afirmar em continuidade. A equipa necessita dele para melhorar a produção global – e essa reclamação já foi feita com mais ou menos veemência; mas ele também precisa que a equipa o ajude a despertar os dotes de mágico e a aceitar a elevada cobrança como substituto de Deco. A esperança de casamento feliz é muito recente.

4. Vencida a primeira e mais dolorosa etapa da aventura portista, o maestro começa agora a conhecer os cantos ao palco e a interpretar os segredos da pauta que tem à frente; mas só quando criar todas as cumplicidades com a orquestra estará em condições de dar resposta à expectativa lançada sobre a plateia: ser ou não ser um dos melhores estrangeiros de sempre do futebol português, eis a questão. Assumir-se como alma criativa deste FC Porto, campeão nacional e europeu, não é para todos. Nada que pareça excessivo a este jovem que já sabe, aos 19 anos, o que é fazer girar à sua volta a mais emblemática, apaixonante e ganhadora de todas as equipas do Mundo: a selecção do Brasil.

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