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1- TRAZIA uma folha de serviços com algumas faltas assinaladas a vermelho – e esse não é o cartão de visita ideal para apresentar na grande casa azul e branca, orientada segundo os princípios da ordem, da disciplina e do bom comportamento. Só o tempo foi capaz de dar sentido a tanto paradoxo: o ar envergonhado não combinava com o sorriso malandro; a aparência de cidadão comum era beliscada pela extravagância do penteado; o trajecto pouco eloquente como goleador parecia de menos para quem vinha substituir Mário Jardel, a máquina de fazer golos mais devastadora dos anos 90. Pena transportou dúvida e esperança, encontrou desespero e expectativa; seria fracasso ou solução milagrosa e percebeu que teria a sentença lida na primeira oportunidade.
2- NÃO é um ponta-de-lança obsessivo – o que sugere a imagem do caçador obstinado, como Batistuta –, mas também não é do estilo passivo e venenoso – o que nos remete para a paciência do pescador, como Romário. Pena não tem a contabilidade em dia, vai marcando os seus golos quando calha, na convicção de que o mais sagrado no futebol é a equipa. Por isso não vê os companheiros como seres inferiores que ali estão apenas para o servir; por isso escapa com nobreza à imagem daqueles que julgam ter ganho o paraíso quando marcam um golo, mesmo que antes e depois não parem de fazer disparates; por isso fica associado à história de um jogo não só por números, mas pelo contributo na construção da vitória ou pela divisão de responsabilidade na derrota.
3- ETERNAMENTE recordado como goleador da época 2000/01, cumprindo assim o objectivo prioritário da contratação – substituir Jardel –, Pena deixa a imagem acrescida de um homem solidário, pronto a correr quilómetros para roubar a bola, meter o pé, dobrar um colega ou muito simplesmente ocupar o espaço. É um matador diferente do habitual, que para combater a solidão também despende energias a fazer coisas para as quais outros do mesmo ofício se mostram indisponíveis, não porque desconheçam os caminhos que levam à participação no jogo, mas simplesmente porque não lhes dá jeito, porque para esses o objectivo é chegar em boas condições ao último toque, isto é, à glória de meter a bola na baliza.
4- APROVADO de imediato pelo tribunal das Antas, sobretudo porque na estreia fez o que todos os outros avançados do plantel ainda não tinham conseguido – marcar golos –, Pena uniu as pontas na despedida da época com uma exibição em cheio, à qual não faltou o carimbo de goleador. Para trás ficaram as desavenças com Jorge Costa (depois de Leiria) e a penalização excessiva pelo mau momento da equipa (depois de Paços de Ferreira). Deu golos e futebol; cometeu excessos mas acabou por aceitar as regras do jogo, reciclando a atitude em nome do bem-estar colectivo. E deixou também um alerta silencioso: se quiserem ponta-de-lança que junte às suas qualidades o comportamento do exemplar funcionário da casa real inglesa o melhor é arranjarem outro.
Figura – QUIM
CURRÍCULO – Desde que me asseguraram que os assobios de Trapatonni para dentro de campo só se viam na televisão e se ouviam a dois metros de distância que sinto relutância em ordenar os treinadores pelo currículo. E o velho Trap até continua em alta: no momento de assumir a selecção italiana está a fazer uma qualificação sem erros, como há muito não se via.
KILL E GONZALEZ – Em vésperas de um jogo em Valência para a Liga dos Campeões, o mais laureado técnico mundial em actividade, a par de Alex Ferguson, depois de tanto ouvir falar do perigo, disse que encontraria uma solução intermédia para marcar a dupla Kill e Gonzalez, pensando que Killy Gonzalez eram dois – e cada um que tire as suas conclusões...
QUALIDADE – Parece claro que há muitos treinadores com mais qualidade que palmarés e vice-versa – houve técnicos portugueses que foram aprender com Trap e regressaram a casa tão ricos (ou pobres) como partiram. Tudo para chegar a este ponto: há muitos treinadores que, por antipatia, negligência ou incompetência, são capazes de transformar um grande jogador num jogador medíocre.
EM ALTA – Felizmente que o contrário também acontece, e nesse capítulo é exemplar a relação de Nelo Vingada e Quim, o ponta-de-lança do Marítimo que mede 1,96 m de altura. Se um jogador tão alto é útil, mais que não seja para lançar em campo quando o tempo e as ideias são escassos, Quim termina a época em alta, revelando qualidades técnicas muito apreciáveis.
IMAGEM – Na final da Taça, Quim assinou movimento espectacular que o levou a cabecear à barra – digno de qualquer manual de ponta-de-lança. Mas não foi só: recebeu e tocou, foi generoso e atrevido, em suma, foi muito mais que o avançado aparentemente desconjuntado que era a sua imagem de marca. E que mais se poderá esperar da sua evolução aos 27 anos?
Passe curto
Capucho terminou a época com exibição à altura dos seus pergaminhos. Começou na direita e fabricou o primeiro golo, prosseguiu na esquerda e foi uma dor de cabeça para a defesa adversária, até ser substituído para ouvir os aplausos de um público rendido ao fascínio do melhor extremo da I Liga.
O último cavalo selvagem do futebol português era a grande esperança do Marítimo para ganhar ao FC Porto. Mas Porfírio nada pôde fazer. Menotti disse uma vez que também era preciso gente para levar o piano a casa de Mozart. Como ninguém conseguiu levar a cabo essa tarefa não houve concerto. Naturalmente.
Alenitchev marcou o primeiro e último golos do FC Porto em 2000/01. Quer dizer: começou e acabou em beleza uma época ao longo da qual não expressou totalmente as qualidades que possui. Isto, claro está, para quem se lembra dele como maestro sublime da grande orquestra que foi o Spartak Moscovo entre 1994 e 1997.
A final da Taça alimentou muitas dúvidas quanto à próxima época. O que vai suceder aos históricos Aloísio e Carlos Jorge? E aos valiosos Paredes e Porfírio? Certeza absoluta apenas quanto à saída de Fernando Santos, compensada, aliás, com o cumprimento amigo de todos os elementos do plantel.
Jorge Coroado acordou bem disposto. Esteve em campo com expressão feliz e revelou atitude tolerante para com os jogadores – o que talvez lhe tenha faltado em certos momentos da carreira. Chegou ao fim um juiz sobre quem nunca se levantaram suspeitas e que assumiu polémicas mas sempre fiel aos seus princípios.
Lá por fora
Totti apontou o segundo golo da Roma em Nápoles e consumava assim a reviravolta no marcador, isto é, deixava a equipa a um pequeno passo de festejar a conquista do título – a equipa de Fabio Capello estava a três pontos da explosão final. Ao consentir o empate do Nápoles, os romanos vão ter de esperar pela última jornada, em casa, com o Parma, para saber se fazem a festa ou entram em depressão. A julgar pelos gravíssimos estragos causados no percurso entre Nápoles e Roma, é melhor que vençam e façam festa em vez de guerra. Isto, naturalmente, a pensar na integridade da nação italiana.