1. No templo de bom gosto que o Vitória Futebol Clube construiu em quase cem anos, nem todas as propostas satisfazem a sensibilidade futebolística de uma plateia renovada mas sempre reivindicativa; porque o vínculo emocional é mais forte do que o racionalismo das ideias, o tempo é medido por nomes próprios: João dos Santos e Armando Martins (anos 20 e 30); Emídio e Jaime Graça (entre 50 e 60); José Maria e Jacinto João (levaram a lenda até à década de 70). Jorginho foi depositário do passado que gerou um estilo, criou um conceito estético e levantou exigências eternas. O modo como defendeu a causa sadina durante quatro anos tem subentendido o compromisso com o clube e a gente, prova de que interpretou na perfeição a força representativa do Vitória para a cidade de Setúbal.
2. A época 2004/05, seguindo o raciocínio, será recordada pela conquista da Taça mas também como período mais esplendoroso de um jogador que recuperou para o Bonfim a magia interrompida desde os anos 80. Jorginho fortalece uma atitude perante o jogo e assenta num modelo de comportamento que privilegia a coragem, o atrevimento e a solidariedade. Sendo um artista, responde a estímulos tão distantes entre si como responsabilidade, aventura e raciocínio; estando em larga medida dependente da inspiração, trabalha como um operário enquanto as musas não o despertam e lhe proporcionam condições para fazer a diferença. Por esse motivo, o seu futebol é precioso de mais para ser reduzido a glória ou morte; a euforia ou depressão; a tudo ou nada.
3. Jorginho é um intermediário entre o jogo e o golo, o elo de ligação perfeito entre a equipa e o ponta-de-lança. É ele quem leva as ideias colectivas até à zona de definição, àquele espaço em que o futebol perde a influência dos conceitos e se transforma em coisa de um homem que passa e outro que remata. Frente ao Benfica, Jorginho sintetizou com magia o papel de quem entrega a estafeta para o último percurso da acção. Agora que está de malas feitas para o Dragão, onde o espera o maior desafio da carreira, valerá a pena recordar que esteve para Meyong ou Bruno Moraes como Luís Garcia está para Baros ou Cissé; que desempenhou para eles o mesmo papel de Kaká para Shevchenko e Crespo; de Zidane para Ronaldo, Raul ou Owen; de Ronaldinho para Eto'o.
4. Inspirado pela sua figura maior, o Vitória acreditou que o sonho fazia sentido; empurrado pela magia da estrela mais brilhante, reencontrou a glória 38 anos depois. Mais do que a referência criativa do V. Setúbal vencedor da Taça de Portugal e um dos expoentes da SuperLiga (ninguém jogou mais e melhor do que ele em 2004/05), Jorginho tornou-se o primeiro grande mito sadino do século XXI, atingindo a expressão máxima de um talento esmagador, comprometido e regular. Porque sem memória não há futuro e preservar a História é uma questão de honra para os setubalenses, nesta viagem de felicidade com passagem pelo céu ninguém vai esquecer Jacinto João, o malogrado génio da perna torta que está para o V. Setúbal como Eusébio para o Benfica. Ele vai gostar de saber que a festa voltou às ruas e a Taça regressou ao Bonfim.
Flanco direito
FUNÇÕES COM TOLERÂNCIA ZERO. Tem um físico exuberante mas não é esmagador na acção. Hugo Alcântara comete poucos erros, não costuma dar de avanço nos duelos em que participa mas raramente protagoniza acções que fiquem na memória. O central brasileiro efectuou boa actuação no Jamor, dentro do estilo discreto mas presente, prova de que nas posições de tolerância zero a eficácia vale mais do que a perfeição. É como os árbitros: o ideal é não dar por eles.
O BOM É INIMIGO DO ÓPTIMO. Hélio foi um grande protagonista da final, mesmo sem ter jogado. Disse adeus ao futebol com a Taça na mão, ao lado de Sandro, como herdeiro do gesto de Jaime Graça em 1965 e de Conceição em 1967. Para que a festa tivesse outro sabor, bastava ao banco sadino ter moderado um pouco a emoção dos últimos instantes do jogo e revelado mais sensibilidade. Fazer entrar o capitão nos derradeiros minutos (ficou uma substituição por fazer) teria sido a despedida perfeita.
JAMAIS O ESQUECERÃO. Comparado com os parceiros de missão ofensiva é mais previsível, tem uma relação menos íntima com a bola e é mais opaco nas acções individuais. Meyong ressuscita a velha questão de que há muitos defeitos de jogador que correspondem a virtudes de goleador. É egoísta, solitário, convencido e pouco habilidoso? Mas é oportuno, letal, inteligente e certeiro. Ao cabo de sessenta golos em quatro anos assinou a obra que valeu uma Taça de Portugal. Mais do que suficiente para nunca mais ser esquecido no Bonfim.
O bem senso como ferramenta
Numa equipa que já estava em perda antes da saída de José Couceiro, mas cujo perfume de bom futebol permitia alimentar esperança de algo mais substancial, José Rachão soube interpretar o desafio: geriu em vez de inovar e, sem promover fracturas, deu continuidade ao trabalho em que os jogadores acreditavam. A sua intervenção denuncia a competência de quem encontrou logo o caminho para o êxito e, com a ferramenta do bom senso, levou o V. Setúbal à vitória na Taça. Notável proeza que era um exclusivo de mestre Fernando Vaz nos anos 60.