Depois de atingir a final da Liga Europa em dois anos consecutivos, um dos grandes desafios que o Benfica tinha reservado para esta temporada era a sua afirmação na prova-rainha do futebol europeu: a Liga dos Campeões, aquela em que todos os jogadores querem jogar e também a que mais dividendos financeiros distribui pelos clubes que nela participam e que tanto ajudam a equilibrar orçamentos.
É o passo que falta a um Benfica que recuperou o seu estatuto europeu, figurando hoje no pote 1 do sorteio da competição, em função de um maior nível do futebol praticado (com a ajuda preciosa de Jorge Jesus) e por intermédio das boas prestações que conseguiu nas competições europeias, essencialmente através da prova secundária da UEFA, a Liga Europa.
Os encarnados têm assim uma espécie de missão por cumprir, com a qual todos os benfiquistas sonham há algum tempo: uma boa campanha na prova milionária, com a passagem da fase de grupos. E além do êxito desportivo inerente, as próprias contas do clube agradeceriam que o clube conseguisse atingir tal desígnio.
Num futebol português que tem poucas fontes de receitas, a participação na Champions é vital para os clubes nacionais e um contributo essencial para cobrir uma parte significativa dos seus elevados orçamentos. Conseguir chegar a um fase mais avançada da prova é, como se pode calcular, a cereja no topo do bolo de qualquer administrador financeiro das SAD.
Com zero pontos em duas jornadas, as coisas não se afiguram fáceis para águias. É certo que o bicampeonato deve ser a grande prioridade dos encarnados, algo que o clube não conquista há três décadas e que permitiria dar sequência aos triunfos do ano anterior, mas isso não significa que os objetivos se fiquem pela liga doméstica.
Apesar de ter tido um sorteio pouco favorável, a verdade é que o Benfica não é inferior a nenhum dos adversários do seu grupo. E como já se viu nos últimos anos, as águias costumam lidar bem com adversários de maior exigência competitiva. Embora tudo esteja mais complicado, a tarefa não é impossível.
Não me parece que falte ambição ao Benfica. E muito menos que o seu plantel esteja, neste momento, com falta de qualidade para enfrentar adversários com nível de Liga dos Campeões. Embora tenham saído vários jogadores importantes, a riqueza de soluções do plantel do ano passado, a par da entrada de elementos valiosos, manteve a equipa com um nível alto, e a comprová-lo está a atual liderança destacada na liga portuguesa.
Desde que chegou ao Benfica, Jorge Jesus sempre se mostrou motivado por participar na liga milionária e até reiterou o sonho de um dia vencer a prova. Por seu turno, esta é a competição de sonho para qualquer futebolista, na qual querem estar presentes no maior número de jogos, marcando presença na principal montra do futebol europeu.
Os números são por vezes cruéis e levam a julgamentos rápidos. A exemplo do que tem feito Lopetegui no FC Porto, também Jorge Jesus tem de gerir um plantel enorme, para dar resposta às várias frentes. Não quer dizer que estão a desvalorizar esta ou aquela competição. Com um calendário tão exigente e apertado, é impossível jogar sempre com os mesmos. Isso é coisa que nem Real Madrid ou Barcelona fazem.
O Benfica europeu ainda tem uma palavra a dizer. Está mais difícil, precisa de pontos, mas as metas iniciais permanecem intocadas. O mesmo se aplica a FC Porto e Sporting. Seria excelente se os três chegassem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões.
O CRAQUE
Um médio moderno
Hoje em dia pede-se a um médio criativo que participe também no processo defensivo da sua equipa. Tem de trazer equilíbrios à equipa, ligando o meio-campo ao ataque, sem abrir brechas na defesa. Este é um dos méritos de João Mário. O jovem leão teve finalmente a oportunidade que procurava e está a revelar todos os seus atributos. Precisão de passe, remate de meia-distância, bom posicionamento nas costas do avançado, recuperador de bolas e capacidade para dobrar os colegas de sector quando recua no terreno. Não tremeu perante FC Porto e Chelsea. Está a crescer de jogo para jogo.
A JOGADA
Os sprints de Tello
Já muito se falou no impacto imediato que Brahimi teve no FC Porto, mas há outro jogador portista que promete ser decisivo ao longo da época: Cristian Tello. O espanhol é provavelmente um dos jogadores mais velozes do futebol europeu e o seu poder de explosão é impressionante. Dá gosto ver a forma como conjuga sprints e técnica em alta velocidade, criando desequilíbrios nas defesas contrárias. Tello traz profundidade, imaginação e assistências ao ataque dos dragões. Só lhe falta definir melhor as jogadas no momento de finalização.
A DÚVIDA
Nem 8 nem 80
Sempre apelei para a necessidade de se criarem mecanismos de controlo que trouxessem maior transparência aos fundos de jogadores. Surge agora a notícia de que a FIFA pretende acabar, a médio prazo, com a existência destes fundos, uma decisão que, acredito, vai acabar por prejudicar a classe média do futebol europeu, onde estão os clubes portugueses, aumentando ainda mais o fosso para os clubes mais ricos de Espanha, Alemanha e Inglaterra. Uma solução intermédia seria mais aceitável. Que outras formas de financiamento irão agora os clubes da classe média encontrar?