O preço de um génio

1. Há um caminho, indicado pelo poder económico de forma compulsiva, que o futebol aceitou como sinal dos tempos; à semelhança das corridas ao ouro no velho Oeste americano, os clubes lançaram-se em busca de fortunas prometidas, cumprindo todos os requisitos da lógica empresarial; em suma, organizaram-se em conformidade com o negócio, sempre com olho no lucro, na construção do manto imenso que tem coberto todas as indignidades, a mais grave das quais não desmascarar logo quem o faz só por interesses pessoais. Com ou sem consciência, o futebol fez lei da simples sugestão e vestiu-se de fato e gravata; controlou a imagem pública, desviou atenções e esvaziou o mais possível o peso dos artistas; tão grave quanto isso, adaptou à realidade uma linguagem moderna, pragmática mas indecente, própria do cinismo de quem se enriquece de nomes próprios e depois os transforma em números – até ver, "activos" é o mais respeitoso que encontrou para lhes chamar.

2. Esta é, afinal, a estrada perigosa que prossegue com diversos atentados à liberdade de expressão dos jogadores e ao inadmissível controlo das suas vidas. Ou mesmo às inacreditáveis pressões, exercidas das mais variadas maneiras, sobre segmentos do seu mundo profissional, com incidência em parceiros tão díspares como jornalistas e empresários, catalogados em gabinetes presidenciais com critérios vagos e subservientes, de bons e maus, amigos e inimigos, inocentes e culpados. É cada vez mais pertinente equacionar se o futebol cresceu ou apenas danificou a componente da paixão; se a megalomania bolsista o cegou ao ponto de virar costas a princípios que o tornaram grande ou lhe abriu horizontes mais vastos; se quer viver o presente só como início do futuro ou se o encara como etapa de um todo que se chama História e já completou cem anos.

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3. As bancadas das Antas constituem o espelho da sucessão de obras-primas que as imagens televisivas têm ajudado a eternizar; a veneração a Deco, expressa em cânticos e cartazes espalhados por todo o estádio, anuncia o novo mito e excede a grandeza dos registos jornalísticos. Se Postiga representa o fascínio da juventude e dos golos que são a herança de Gomes, Domingos e Jardel, Deco é a dimensão moderna do génio que atravessou o século XX azul e branco, registado com os nomes de Pinga, Araújo, Hernâni e Oliveira; e é também a recuperação de paixões como Futre e Madjer, membros honorários do imaginário do próprio País. A discussão está lançada: manter Deco ou trocá-lo por saúde financeira. José Mourinho teve intervenção pública sobre o assunto e enquadrou-o perfeitamente. De facto, qual o preço certo para o génio de Deco? Uma convicção: ninguém está em condições de o valorizar na exacta medida daquilo que tem feito no FC Porto. Uma suspeita: dificilmente haverá proposta que honre o alvo do negócio, ou seja, um dos melhores futebolistas mundiais da actualidade.

4. Um dos principais factores a ter em conta é a posição do clube que, aparentemente, admite resistir a assaltos. A época passada, o Sporting teve de deixar partir Hugo Viana e sabe hoje o que perdeu: nobreza, elevação e perfil que, partindo de um talento como não há igual, o elevariam fatalmente a referência absoluta. Amadeo Carrizo, o argentino que revolucionou o posto de guarda-redes entre 40 e 60, deixa mensagem no livro oficial do clube de sempre: "O meu amor pelo River (Plate) posso resumi-lo numa só frase: chorei três vezes na vida. As três foram pelo River." Deco ainda não se pronunciou sobre o assunto, mas é improvável que enquadre a relação com o FC Porto nos mesmos termos emocionais. Já Rui Costa, por exemplo, seria o mais feliz dos homens se pudesse ser Carrizo no livro do Benfica. E por falar em afectos, ninguém fica indiferente à história de Mauro, o menino que viveu decepcionado, sofreu e atravessou o deserto sempre motivado por um sonho de infância. O sonho, agora cumprido, de jogar no Clube de Futebol "Os Belenenses".

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