CORRE TU – Existe uma lenda sobre César Luis Menotti: um dia a sua equipa passou a jogar com menos um e viu acentuar a pressão sufocante do adversário. Aquele que viria a ser um dos mais importantes treinadores do final do século actuava no Boca Juniors. Diz-se que na aflição os jogadores se uniram com palavras de ordem, perante a desconcertante indiferença de Menotti, que rondou mesmo a provocação. Quando um símbolo como Rattin lhe disse "César estamos com menos um, é preciso correr mais", a resposta não se fez esperar: "Corre tu, porque eu estou aqui para jogar futebol e quem sabe jogar não precisa de correr."
DEFEITOS – O tempo encarregou-se de aumentar a carga das palavras do técnico campeão do Mundo em 1978, exagerando o teor da resposta. Mas ainda hoje Menotti confirma a história e explica: "Os futebolistas dividem-se entre os que sabem e não sabem jogar. Eu tinha muitos defeitos mas compreendia o jogo." E acrescenta com tranquilidade, como se isso fosse a coisa mais pacífica no futebol: "Podemos andar, correr ou até estar parados que o parâmetro mais importante não é a dinâmica mas o conhecimento."
CORRER MUITO – Escusado será dizer que a realidade dos anos 60, aquela que o treinador argentino conheceu enquanto jogador, modificou-se com o passar do tempo e até já estamos no século XXI. Cada um de nós está hoje habituado a admirar futebolistas só por atributos físicos – quantas vezes elogiamos só porque vemos alguém correr muito e sem parar? – ou pela detecção de linhas de orientação que os levam a ultrapassar a falta de talento à custa de outros argumentos – quantos elogios já gastámos só pelo facto de detectarmos coragem, generosidade e força para nunca desistir da luta em gente que, no fim de contas, não nasceu para jogar futebol?
BARRIGUINHA – Mas se o conceito defendido por Menotti parece hoje desfasado da realidade, é bom não subestimar a sua essência, porque o tempo encarregou-se de operar apenas uma alteração: a regra de há 40 anos é hoje excepção. Quando Mário Jardel se estreou com a camisola do Sporting, em Leiria, confirmou todas as suspeitas: estava pesado, sem ritmo, com barriguinha, sem mobilidade, incapaz de aguentar um jogo inteiro. E ninguém falou do resto, no fundo o mais importante: a sua capacidade futebolística.
INTUIÇÃO – Jardel é um fenómeno que transforma nada em golos à custa de intuição, da capacidade, que ele próprio define como sendo uma bênção divina, de adivinhar o lugar onde está marcado o encontro com a bola para o remate fatal. Podemos alimentar a discussão, até porque o prestígio do músculo continua a ser excessivo. Mesmo habituados a ver jogos que parecem lutas entre exércitos preparados para a guerra, quando vemos Jardel percebemos que o futebol, tal como muitos o entendem, ainda é outra coisa. Jardel pertence à minoria que está autorizada a fazer suas as palavras de Menotti: "Quem sabe jogar não precisa de correr."