1. No tempo das explicações simplistas, fruto de uma informação dispersa e inacessível; quando meia dúzia de argumentos falaciosos serviam para responder a todas as questões, jogador que chegasse a um clube grande, vindo de outro mais modesto, já sabia o que o esperava. Se não triunfasse sofria logo o crivo de saloio perdido na grandeza dos maiores centros populacionais, sob acusação de talento limitado e, afinal, circunscrito geograficamente à terrinha distante. Era como se fosse gente do campo inadaptada às regras da aristocracia urbana e cujo destino fatal era regressar a casa para voltar a ser feliz. Porque nem o Sp. Braga é província no contexto do futebol português, nem o Sporting tem aspirações a ser o palácio de Buckingham, o caso de Wender é, todo ele, muito diferente.
2. Sendo um espírito livre e criativo, orientado pela estética das meias em baixo, da camisola fora dos calções e do ar gingão que lhe confere o aspecto de falso alheamento, Wender é um jogador comprometido com as linhas de orientação global da equipa. É essa vocação de cumplicidade com o treinador que o tornou inigualável sob o comando de Jesualdo Ferreira; é o entendimento dos conselhos do professor que lhe permite não só entender tudo quanto se passa num raio de muitos metros, como interpretar o papel de avançado-esquerdo no 4x3x3 – menos extremo e mais apoio ao ponta-de-lança, como Derlei fazia no FC Porto vencedor da Taça UEFA. Foi esse jogador maduro, motivado, confiante, identificado com a função, numa equipa bem estruturada, que se deixou subjugar pelo fascínio da nova experiência.
3. Em Alvalade, Wender resistiu com o orgulho intacto, rendido à persistência de José Peseiro em contratá-lo – mas o ex-treinador leonino solicitar-lhe-ia aquilo que um futebolista, aos 30 anos, oferece com mais relutância: tempo. Já Paulo Bento herdou uma peça de encaixe problemático no sistema escolhido, razão pela qual, ao fim de quatro meses a sentir-se esvaziado, o jogador foi conivente com a saída. O génio de Garcia Marquez esclarece-nos que “os assuntos de honra são arquivos sagrados a que só têm acesso os donos do drama”. Se o Sporting agiu sem ressentimentos e o atleta diz que não jogou de raiva nem teve propósitos de vingança, o melhor é acreditar em uns e outros – mesmo que os dois golpes fatais no leão tenham implícito o calor da euforia bem disfarçada.
4. Se a nostalgia também pode pregar partidas insidiosas, Wender revelou subtil malícia no modo como silenciou as mágoas mais fortes e adaptou o sentimento ao lado mais profissional: fez do regresso a casa um elixir de ressurreição, resgatando uma luz de esperança dos escombros em que estava transformada a sua experiência leonina. Mesmo com a convicção intacta de que possui argumentos para triunfar seja onde for, talvez o Sporting tenha sido apenas uma emboscada do poder; talvez a sedução do palácio real não tenha passado de um equívoco para quem se habituou a ser o Robin Hood da Liga portuguesa, o bom malandro que passou uma época (2004/05) a roubar aos ricos para dar aos pobres. Foi essa lenda, como grande figura do Sp. Braga transformado em potência nacional, que Wender retomou agora frente ao Sporting.
FLANCO DIREITO
O arsenal de Carlitos
É raro ver-se uma só peça influenciar tanto um jogo. No Restelo, Carlitos instalou-se numa zona correspondente a um ponto fraco do adversário e puxou de vastíssimo arsenal de armas para desequilibrar: sprints longos e curtos; fintas na direcção da linha e da baliza; passes de morte instantâneos e acções individuais prolongadas. Foi dele o golo que lançou o Gil Vicente para a vitória. Mas de quem havia de ser?
Só falta começar a ganhar
É raro ver-se uma só peça influenciar tanto um jogo. No Restelo, Carlitos instalou-se numa zona correspondente a um ponto fraco do adversário e puxou de vastíssimo arsenal de armas para desequilibrar: sprints longos e curtos; fintas na direcção da linha e da baliza; passes de morte instantâneos e acções individuais prolongadas. Foi dele o golo que lançou o Gil Vicente para a vitória. Mas de quem havia de ser?
Será só da minha vista?
Quaresma já esgotou os adjectivos aos jornalistas, continua a alimentar a paixão dos adeptos e não pára de espalhar terror entre os adversários que, antes de cada jogo, pensam, agem e falam como se fossem a caminho da cadeira eléctrica. Que existe relação entre o melhor jogador da Liga e a liderança do FC Porto não há a mais pequena dúvida. Aqui para nós, começo mesmo a acreditar que, feito o ponto da situação em Janeiro de 2006, não existe outro jogador assim na Europa.
E QUIM, O QUE TERÁ DITO A KOEMAN?
Koeman compreende a insatisfação de Quim e até já falou com ele, prova de que a opção por Moretto não o deixou à vontade. Mais interessante, imaginando uma troca de palavras aberta, era ouvir o que Quim teria para dizer a Koeman. Que lhe comeram a carne (operado de urgência, numa situação delicada para a equipa); tiveram de lhe roer os ossos (obrigado a jogar em inferioridade física) e, agora que estava perto dos níveis normais, trocaram-no por outro. Por mais razões que se encontrem para a decisão, nenhuma corresponde ao senso comum da justiça.