O tiki-taka sem liderança

O tiki-taka sem liderança

O Barça procura, com Jordi Roura, adjunto do ex-adjunto de Guardiola, o elixir de ressurreição como única equipa, em 40 anos, a dar dimensão vitoriosa a uma plasticidade com traços de poesia, pintura, música, ballet e até circo.

1 - Quanto mais maduro for um plantel mais certeiro, correto e seguro será nos diagnósticos, nas avaliações e nas opções a tomar face às debilidades temporárias que tiver pelo caminho. Jordi Roura lidera equipa que não perdeu o vínculo sentimental à gente que representa; que mantém identidade, padrões estéticos e princípios de jogo enraizados mas que perdeu eficácia. O tiki-taka não foi travado para sempre, porque a sua construção foi tão segura e criteriosa que está devidamente consolidada no ADN do clube; mas deixou de resultar. Numa ocasião em que foi chamado a tomar conta interinamente do Real Madrid, Alfredo di Stéfano saiu vergado ao fracasso. Na despedida, disse aos jogadores: “Vim para dar-vos a mão e, afinal, dei-vos o pé.” Resta saber o que tem Roura para dar aos jogadores blaugrana.

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2 - O Barcelona 2012/13 não é o crepúsculo de uma grande equipa só porque perdeu com Milan e com o Real Madrid (duas vezes). A seu favor reverte o crédito de, em pleno século 21, ter concretizado o que parecia uma quimera; de ter cumprido a utopia do belo e do nobre num futebol cada vez mais fascinado pela eficácia a qualquer preço. Por circunstâncias alheias ao planeamento, o clube foi obrigado a fazer uma perigosa delegação de autoridade técnica, colocando nas mãos do adjunto do ex-adjunto de Pep Guardiola o diamante que é a sua equipa de futebol. Os jogadores do Barça têm o sentido de orientação incorporado mas não podem prescindir de quem lhes recorde e estimule os princípios de toda a vida; de quem seja a indiscutível imagem de liderança de um projeto perante o qual estão obrigados a ser tão comprometidos como sempre.

3 - O treino, à semelhança dos elementos imprescindíveis para o funcionamento de qualquer equipa, tem uma dinâmica própria; nunca é processo definitivo, porque necessita de entrega e concentração; porque os jogadores precisam de estar em permanente estado de alerta, sem darem por concluída a aprendizagem; porque até a simples gestão obriga a introduzir dados novos nos hábitos quotidianos, de forma a não baixar a guarda. Com a Liga no bolso e o treinador afastado por doença, o Barça aliviou os torniquetes do rigor, baixou a tensão competitiva e não evitou quebra que lhe afetou o bem-estar. Nas recentes derrotas, a equipa teve mais iniciativa mas foi menos intensa e perigosa. Demorou a recuperar a bola, razão pela qual iniciou ações ofensivas mais atrás, diminuindo a capacidade para aproveitar a desorganização alheia.

4 - Se a posse ficou menos exuberante é porque Tito Vilanova acrescentou jogo direto ao rendilhado de Pep Guardiola – e com Roura a circulação incide em zonas ainda mais distantes da grande área. O Barcelona procura agora o elixir de ressurreição que lhe devolva credibilidade como exército que mais se aproximou da perfeição desde o Ajax de Rinus Michels e Stefan Kovacs, no início dos anos 70; como única equipa, em 40 anos, a dar dimensão vitoriosa a uma plasticidade deslumbrante, com traços de poesia, pintura, música, ballet e até circo. As recentes derrotas com as maiores potências do futebol do século passado provam apenas aquilo que já devíamos saber: nenhuma equipa ou empresa pode ser dirigida com o líder à distância.

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A sentença do especialista

O guarda-redes só tem a ganhar no duelo com o atirador. As bases do momento são aquelas que Armando Nogueira, escritor e jornalista brasileiro, definiu com brilhantismo: “O penálti é uma sentença de morte em que o carrasco pode ser a vítima.” Quim cumpre os requisitos de um especialista, porque tem intuição, controlo emocional e boa memória para antecipar a decisão de quem pretende fuzilá-lo – na maioria dos casos, o guardião conhece a matriz do atirador. Quando não sabe e não deteta qualquer sinal, faz como diz Valdano: “Voa para onde diz o instinto e, no ar, espera notícias.”

Entre a coragem e a inconsciência

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Se o guarda-redes joga para ser protagonista e nada tem a perder, o atirador deve abordar o momento como simples missão de salvar a pele. Alguns parecem ter inveja da condição de herói atribuída ao adversário e arriscam. Não perdem de vista o objetivo (meter a bola na baliza) mas querem cumpri-lo reclamando a presença dos holofotes. Se marcam humilham os potenciais heróis e, em certos casos, entram na lenda; se falham têm de suportar o ridículo da nudez diante milhares de pessoas. Nessa altura a coragem passa a chamar-se inconsciência. Não é assim, Jackson?

Um verdadeiro extraterrestre

Gareth Bale é o novo passageiro da carruagem onde viajam as maiores figuras do futebol. Entrou sem bater à porta, oriundo de um clube com ambições moderadas e com percurso que inverte a tendência: começou como defesa e evoluiu para médio-esquerdo de nível mundial. Nos últimos jogos do Tottenham, que tem sabido aproveitar o estado de graça da sua estrela maior para jogar cada vez melhor, o galês parece um extraterrestre em filme de cowboys. O talento, a dinâmica, a influência, mais a perfeição que atingiu com o tiro de pé esquerdo fazem dele um jogador único à escala planetária.

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