O treino possível

O treino possível

Não é à toa que alguns dos bons treinadores da atualidade não mostrem particular entusiasmo com a possibilidade de selecionadores nacionais. Tal como para os jogadores, significa representar o país em provas internacionais, um sonho para quase toda a gente, mas é sempre um trabalho em “part-time” e que não satisfaz os “workaholics” e obcecados pelas táticas e pelo crescimento de uma equipa. Jorge Jesus e José Mourinho, dois treinadores que rejeitam, pelo menos por enquanto, o cargo de selecionador, já o explicaram: com meia dúzia de dias de trabalho a cada um ou dois meses (as exceções seriam os estágios antes das fases finais das grandes competições), não conseguiriam fazer a equipa, os jogadores e a própria ideia de jogo crescerem da forma como querem.

Não duvido nem um bocadinho do compromisso, do empenho e do profissionalismo de Fernando Santos à frente da Seleção, mas é um facto que pouco poderá fazer para dar rotinas a uma equipa constituída por jogadores que passam a maior parte do tempo dispersos por vários países, a treinar outros sistemas táticos e movimentações, com métodos e em línguas diferentes – a exibição de ontem diante da Arménia prova-o. A um selecionador, resta observar e escolher os melhores. Algo que Fernando Santos tem feito.

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Depois, há o elemento Nossa Senhora do Caravaggio, a santinha que abençoava Luiz Felipe Scolari e que melhor representa o trabalho do brasileiro. Felipão está longe de ser um excelente técnico, mas os resultados à frente da Seleção portuguesa provam que foi um excelente selecionador. E tudo porque, mais do ensinar táticas aos jogadores, Scolari sempre soube que o mais importante era ter o grupo unido e focado, e os craques motivados e de bom humor. Para isso, recorria à tal santinha, mas também a serões animados por Quim Barreiros, conselhos do amigo padre Pedro Bauer ou frases retiradas do livro “A arte da guerra”, de Sun Tzu.

As palavras descontraídas de Fernando Santos na véspera do encontro com a Arménia – tal como se estivesse entre amigos, falou em “gajos na área”, em “ganhar nem que seja com um pau”, etc. – mostram que o novo selecionador já percebeu que a parte que melhor pode treinar é a mente dos jogadores. Não é a Nossa Senhora do Caravaggio, mas também ajuda.

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