Pensava que as “alfinetadas” entre dois companheiros de profissão e ex-colegas na Selecção já faziam parte do passado. Enganei-me. Ricardo e Vítor Baía ainda têm necessidade de vir a público manter um duelo tão antigo quanto ridículo.
Ricardo, em entrevista a Record, foi tremendamente deselegante quando disse não conhecer Baía. Não sei o que esteve na origem da animosidade do guardião do Sporting em relação ao portista, mas penso que depois de tanta polémica, Ricardo não precisava de voltar a “atear” a discórdia. Ao fazê-lo, claro, obrigou o antagonista a responder. Se era esse o objectivo, o “keeper” do Montijo está de parabéns. Se a ideia era outra então é óbvio que não foi feliz na “táctica” utilizada. Ricardo, quando atravessa o melhor período da carreira, não devia desperdiçar energia assim. Tinha feito melhor ao enveredar pelo famoso “não faço comentários sobre esse assunto”.
Segundo consta -os protagonistas jamais esclareceram, de forma frontal, como e onde nasceu esta embrulhada… -, Ricardo nunca terá “engolido” o facto de não ter sido titular durante o Mundial de 2002. Concordo, em absoluto, que Baía não devia ter ocupado a baliza lusa durante essa cinzenta prova no Oriente. Mas, entendendo o desagrado de Ricardo, gostava que me explicassem um “pormenor”: Baía foi escolhido porquê e por quem? Não acredito ter sido o próprio a decidir que era ele o titular. A opção, naturalmente, partiu do seleccionador. António Oliveira, por esta ou aquela razão, é que não foi justo com Ricardo. Na altura, efectivamente, não era Baía o guarda-redes nacional em melhor forma. Logo, ser suplente teria sido a decisão adequada. Mas, independentemente de se ter esta ou aquela opinião, só o técnico poderá ser responsabilizado por ter optado por Baía.
Num passado recente, o sportinguista também conheceu momentos de menor rendimento, tendo mesmo perdido a titularidade no clube de Alvalade. Mas, nem por isso, deixou de ser o número 1 na Selecção. Não apoiei a decisão de Scolari, pois, como sempre, defendo que na equipa nacional devem jogar os melhores a cada momento e não os melhores há 1 mês ou 1 ano. Mas, mesmo não concordando com a opção do responsável, nunca me passou pela cabeça criticar Ricardo só pelo facto do guarda-redes ter cumprido a escolha do seleccionador.
Entre as muitas “conversas de bastidores” resultantes da passagem de Portugal pelo Mundial de 2002 também se diz que Baía terá feito pressão no sentido de ser o titular. Nunca percebi, ao certo, se essa pressão foi real e, tão ou mais importante, em que é que consistia. Será que Baía pensava e dizia que devia ser titular? Se assim era, resta-me concordar. Mal dos jogadores, de futebol ou outra qualquer modalidade, que aceitam, serenamente, ser suplentes no clube ou na Selecção. O desejar sempre mais e melhor é uma das características dos eleitos. Um jogador com o currículo de Baía só pode pensar que deve ser sempre titular... mesmo que seja a única pessoa no Mundo a ter essa ideia. No momento em que interiorizar não ter argumentos para ser titular... saberá que chegou a hora de pendurar as botas. Ricardo, no tal período de menor fulgor, também deve ter acreditado que era a melhor solução para a Selecção. Caso contrário, naturalmente, deveria ter pedido para ficar de fora.
Baía é ainda acusado de não ter estado bem no FC Porto-Sporting da Taça de Portugal da temporada passada. Não posso concordar com essa análise, pois não vi o portista agredir ninguém, nem tão pouco ter atirado, propositadamente ou não, a bola à cara do seu adversário. Se o fez, via televisão, foi impossível confirmá-lo. O”crime” de Baía, no entender de muita gente, foi ter tentado enervar os jogadores leoninos que se preparavam para bater os penáltis, sendo que um deles era Ricardo. E daí? Não é o montijense também um especialista em desorientar os opositores nesses momentos de tensão? Ao serviço da Selecção, nomeadamente diante dos ingleses, o internacional luso sabe sempre como enfeitiçar Beckham e companhia. E ainda bem que aprendeu a fazê-lo, pois o resultado é bastante agradável. E não me lembro de nenhum britânico se ter queixado por Ricardo ter tirado as luvas, piscar os olhos ou ter assobiado…
Em resumo, ninguém obriga Ricardo a gostar de Baía, nem a aceitar com um sorriso nos lábios o facto de ter sido injustamente “encostado” em 2002, mas será mesmo preciso continuar a “repisar” esta novela? Ricardo, depois de ter demonstrado (mais de uma vez) que não se dá bem com as críticas nos momentos em que erra, também “descarrilou” quando é, de momento (e agora sem discussão), o melhor guarda-redes português. Mesmo que lhe assista alguma (ou muita) razão neste imbróglio, Ricardo cometeu um erro ao, fora de contexto, tratar Baía com desprezo. O portista foi e há-de continuar para sempre a ser uma referência no futebol português e não só. O seu sucesso não caiu do céu, nem consta ter sido alcançado através de uma qualquer pressão efectuada pelo próprio...