Obras-primas da ansiedade

1 - Denegrir o belo por ser totalmente inútil para respirar é o mesmo que recusar o luxo de um bom restaurante, em melhor companhia, só porque não é preciso tanto para matar a fome. Que os pragmáticos fiquem felizes por se alimentar de pão e água é lá com eles, só não queiram convencer-nos de que isso é comer bem. No culminar da miserável exibição frente ao Liechtenstein, Luiz Felipe Scolari ficou “bravo” com os jogadores. Explicou o general que ordenou um recuo estratégico para gerir a vantagem mínima sobre a 123ª selecção do “ranking”, mas que eles, soldados inconscientes, feridos no orgulho (isto já sou eu a dizer), quiseram dar ao resultado expressão menos sombria. No fim, cortou pela raiz qualquer hipótese de reflexão e, a sete meses de distância, anunciou os primeiros convocados para o Mundial: Ricardo e Quim.

2 - Ricardo teve início de época desastroso: cruzou-se com o erro e a incompreensão; esgotou o crédito e perdeu a baliza do Sporting; danificou a confiança em si próprio e viu crescer a dúvida. Tornou-se um jogador em permanente agitação, com emoções descontroladas, indiferente à máxima de que a falha num guarda-redes não tem remédio – sorte têm os avançados, para quem um golo basta para apagar da memória o falhanço mais escandaloso. Por ser um profissional íntegro e corajoso; por não temer as grandes batalhas e acreditar cegamente nas suas qualidades; por ser inteligente na avaliação do que o rodeia, está preparado para reassumir a baliza leonina. Mas só com o afecto das bancadas e a confiança dos companheiros ficará a salvo de imprevistos neste regresso, tudo indica, precipitado pelo azar de Nélson.

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3 - No arranque de um novo ciclo, deve também interpretar o anúncio extemporâneo de Scolari e dele extrair o essencial no sentido de reconquistar tranquilidade para o resto da época. Ricardo tem pela frente o desafio de mostrar que as sucessivas obras-primas da ansiedade construídas no arranque de 2005/06 (um catálogo que engloba saídas em falso, avaliação incorrecta da distância em relação à bola e voos desnecessários) não passaram de acidentes de percurso. Porque o treino ajuda a diminuir riscos mas não teatraliza tudo, só a força do carácter e o peso da experiência combatem com eficácia a excessiva responsabilidade da competição: o valor dos três pontos; a hostilidade das bancadas; o veredicto dos dirigentes; a pressão das câmaras televisivas e das opiniões jornalísticas.

4 - Ricardo é uma contradição entre o perfil de homem sensível e lágrima fácil e a estrela convencida que compra guerras baratas e deixa afectar-se por pouco; sendo uma pessoa humilde e conscienciosa, ficam-lhe mal os ataques arrogantes de quem sabe tudo e nada mais tem a aprender, desvario cuja embalagem acaba na convicção expressa de que todos quantos o criticam são ignorantes e mal-intencionados. Assente em qualidades de excepção, Ricardo continua a vencer etapas na construção de um excelente guarda-redes. A caminho dos 30 anos, ao serviço de duas potências como o Sporting e a Selecção, está a amadurecer qualidades natas e a moderar ímpetos de um nervosismo desaconselhável a quem defende a baliza de grandes equipas. O tempo corre a favor dele.

O espelho fiel de um povo

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De repente, entrou-nos pela casa adentro o rosto envelhecido do menino que um dia chegou a Lisboa com o sonho de triunfar na Europa: era o herói do maior feito da história do futebol angolano. Akwá foi o símbolo do triunfo e o espelho emocionante de um povo; o capitão respeitado (líder), o avançado salvador (marcou o golo) e o único jogador em campo com dimensão mundial (estatuto, maturidade, visão, técnica, força, intuição, drible, toque, remate…). Uma grande figura.

O valor do antagonismo

Em Anadia, Quaresma pôs em prática manancial infinito de truques com sentido prático, enquanto Hugo Almeida confirmou-se como um dos projectos mais interessantes da nova geração. O avançado marcou de cabeça e de pé esquerdo, na transformação de um livre directo. Mais que não seja por antagonismo de características (é o mais alto, o mais forte e o que joga melhor de cabeça), é preciso contar com ele. E não só na selecção de Sub-21.

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Razões para ser individualista

É cíclica a tendência nacional para criticar Cristiano Ronaldo por individualismo. Em Inglaterra deixaram-se disso, porque os adeptos acreditam no génio e ele, jogador, também já moderou a tendência. Mas a principal diferença não reside em ambos. É que no Manchester United toda a gente sabe o que faz em campo e, apesar da imensa qualidade individual, estão todos ensinados a resolver problemas em conjunto.

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