Olímpica escravatura

Joseph Blatter, o todo-poderoso presidente da FIFA, continua em grande forma. Agora, depois de ter descoberto que Cristiano Ronaldo era um escravo, chegou à conclusão que os clubes de futebol não deviam impedir os atletas menores de 23 anos de participar nos Jogos Olímpicos. Diz que a ideia vai contra o espírito da coisa. Demorou, mas o senhor chegou lá. Pena é ter estado calado durante tanto tempo e permitido inúmeras situações indignas que, naturalmente, não prestigiam quem as comete, nem tão-pouco quem as deixa passar sem a devida intervenção/sanção.

É evidente que os clubes, mesmo sendo os patrões dos futebolistas, não deviam inventar desculpas esfarrapadas para tentar impedir a presença dos seus atletas nos Jogos Olímpicos. Só que eles fazem sempre isso. Torcem o nariz à Taça das Nações Africanas, à Copa América e até à maioria dos particulares que as selecções europeias realizam de modo a preparar os embates oficiais. Só ficam de bico calado aquando dos Europeus e Mundiais. Mas isso, todos sabemos, são as grandes montras para os meganegócios que enchem os bolsos de muito boa gente...

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É óbvio que percebo a insatisfação dos clubes poderosos por não poder contar com alguns funcionários durante uns dias, na fase de pré-temporada ou arranque das competições internas e europeias. Mas, convenhamos, esse é o preço a pagar por contratarem jogadores de grande nível. Se são bons para representar os emblemas mais cotados do planeta, também são bons para vestir as cores nacionais no maior evento desportivo do Mundo. Ou não?

A observação de Blatter, pese tardia, é correcta. Mas também incompleta. Os clubes deviam ser obrigados a ceder não só os menores de 23 anos, mas também os outros, mais velhos, que são escolhidos para reforçar as equipas. Estamos a falar apenas de três jogadores acima dos 23 anos por selecção. Será um exagero? Não me parece! Será este modelo uma ameaça aos Europeus e Mundiais? Nem por sombras! Aliás, gostava de saber com exactidão quantos futebolistas que participaram no recente Europeu da Áustria e Suíça foram escalados para Pequim...

Os maiorais do futebol internacional nunca quiseram que a competição olímpica de futebol decorresse sem limitações, nem com a dignidade que justificava. Sempre desejaram uma prova que funcionasse como certame menor. Por outras palavras, estiveram sistematicamente a fazer o jogo dos clubes, ignorando algo que, penso eu, devia ser levado em conta: a opinião dos jogadores. Se Blatter considera Cristiano Ronaldo um escravo por o Manchester United não o libertar de um contrato assinado de livre vontade, como qualificará a situação de Messi, Diego ou Ronaldinho (entre tantos outros) que, vezes sem conta, já manifestaram o desejo de jogar pelos seus países em Pequim? Ambicionar uma medalha olímpica será um sonho assim tão insignificante?

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Se as grandes estrelas do basquetebol ou do ténis (a maioria com contas bancárias superiores aos futebolistas de eleição) há muito se deixaram de ideias retrógadas e, grosso modo, fazem questão de estar nos Jogos Olímpicos – sem que as respectivas federações internacionais levantem obstáculos -, porque razão quer o futebol viver num mundo à parte? Impedir cada país de se apresentar com mais de três atletas acima dos 23 anos não é uma benesse suficiente?

Se Joseph Blatter não preferisse falar a tomar decisões, bastava incluir os Jogos Olímpicos no calendário oficial de competições futebolísticas e acabavam-se as posições ditatoriais dos clubes em relação aos seus jogadores (pelos menos no que se refere aos menores de 23 anos). Mas, enfim, escravo é o Cristiano Ronaldo porque o Manchester United não o deixa ir para Madrid...

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