Operações aritméticas do talento

1. Os grandes artistas crescem motivados pelo aperfeiçoamento da intimidade com a bola e vivem obcecados pelo palpite, normalmente correcto, de que têm pela frente uma relação para o resto da vida; quando surgem os adversários, encaram-nos como parceiros que, à falta de outra utilidade, são bons para testar as habilidades da infância; as plateias vêm mais tarde e trazem o barulho viciante que valoriza a excepção, estimula os malabarismos e lança os dados para um determinado conceito de espectáculo. É esse o momento chave da carreira de um predestinado: ou acha que já aprendeu tudo e não passará de um bom projecto; ou aceita os sacrifícios e prossegue o caminho até se transformar num grande jogador de futebol. A diferença está na importância atribuída aos companheiros e na inteligência para entender a complexidade do jogo.

2. O talento individual tem muitas formas de expressão, de influir numa equipa e até decidir a sorte da hora e meia. Ainda e sempre tomando como referência os seres superiores para quem a Natureza foi generosa, há quem oscile excessivamente entre a glória e o fiasco. Gente que conhece o papel de herói mas que, em dia mau, se reduz a zero, funcionando como escandalosa subtracção ao onze – Roger foi um bom exemplo do que já vimos a Rivaldo, Baggio, Ortega, Romário, Zahovic... Prosseguindo no campo das operações aritméticas, há também os resistentes a marcações apertadas, a faltas de espaço, à desinspiração colectiva, a maus momentos de forma. Esses pertencem ao lote dos que somam sempre, até nas dificuldades – João Pinto deu futebol e um golo ao Sporting; num conjunto de ataque quase inexistente, Simão ofereceu, por sua conta e risco, iniciativa ao Benfica.

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3. Figo, Beckham, Ronaldinho Gaúcho, Ballack, Riquelme, Recoba e Zola são alguns exemplos de grandes figuras que acrescentam muitíssimo ao colectivo e raramente se deixam apagar do mapa – aproveitam os 90' para distribuir autógrafos em forma de dribles, passes e golos que os tornam decisivos. Mas há ainda uma outra espécie, menos mágica, talvez até mais desinteressante para o comum dos adeptos, mas mais importante para o funcionamento global das comunidades em que estão inseridos: a dos jogadores que, por funções mais abrangentes e também por estatuto, funcionam como denominadores comuns e servem de multiplicadores sistemáticos dos respectivos conjuntos. Essa raridade, na SuperLiga, chama-se Deco, o brasileiro genial que está a cumprir com segurança o percurso que, em condições normais, já o teria levado ao escrete.

4. Há muito que fez da relação com a bola um bem colectivo e se tornou factor de multiplicação para a equipa. Deco venceu todas as etapas necessárias para atingir o nível que hoje o caracteriza: já concluiu a transição do que era só amor pela bola e é hoje paixão pelo jogo; já encontrou sentido prático para evitar a ridicularização dos adversários só por prazer – e o egoísmo perdeu a influência nociva que tinha no repertório; por fim, moderou os ímpetos da agressividade excessiva e aperfeiçoou gestos e movimentos de grande maestro, à volta de quem gira a cadência e a criatividade ofensiva do FC Porto. O seu domínio é tão avassalador que dilui erros alheios, da mesma forma que potencia o êxito das intervenções de cada um dos elementos da orquestra. Deco tornou-se único em Portugal. Com estilos, zonas de intervenção e raios de acção diferentes, só existem três casos parecidos no Mundo: Rui Costa, Zidane e Totti.

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